Poderia ser sete ou oito da noite. Talvez um pouquinho mais tarde. Sei lá, nove, nove e meia, com chances de já estarmos perto da meia-noite.
O dia passou tão pesado! As horas pareciam esculpidas monoliticamente por um artesão caprichoso, com forte gosto pelo infortúnio alheio.
O restrito, escaldante e negro desjejum, logo fez às vezes de um almoço jamais empratado. Emendou num lanche nunca servido. E teve de satisfazer os anseios de uma máquina estomacal esquecida, como se se prestasse também ao jantar.
Naquele raro momento de soninho, no qual meu bebê mais parecida um anjo, sem dores, sem angústias, sem choro… Lembrei! Não fiz xixi hoje!
Fui mecanicamente ao banheiro, baixei a calcinha bege, sentei sobre a tábua fria, pensei “que momento bom para não pensar em nada”. Dizem que livrar a mente de pensamentos é o princípio da meditação. Será que mais alguém usa o vaso como caminho para a elevação espiritual? Enfim…
Depois de alguma meditação sanitária, cheguei à conclusão: não pode ter xixi, não bebi nem um copo d’água. Levantei, arrastei meu corpo até a pia. Lavar as mãos e o rosto. Ignorar as olheiras. Prender o cabelo. Escovar os dentes. Tudo pela primeira vez no dia.
Talvez a água gelada. Talvez, o gosto mentolado. Também desconfio daquela vertigem que só quem já viveu seu corpo solitário nos primeiros meses de maternidade, poderia compreender. Não sei ao certo. Talvez uma reação química nauseante de não se lembrar de como e em que ponto a vida se transformou naquele teatro de horrores. Qual foi mesmo o motivo? Ah, sim! Foi por amor!
Um jato! Minha pia branca logo se encheu de restos de nada. Tontura. Um grito: – Sua porca!
Uma informação: – Se você acha que vou ficar com peninha da sua cara de sofrimento e limpar sua sujeira, está muito enganada! Pode tratar de limpar aquela imundície.
Um diagnóstico médico. Intolerâncias múltiplas: ao amor idealizado; à família idealizada; à maternidade idealizada. Que remédio!?
Por Paola Vanessa Gonçalves Dias – @vanessadias_escritora





