Carreira e maternidade: entre potências, culpas e reinvenções

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Eu nunca conheci uma mulher que tenha voltado a ser a mesma depois da maternidade.
E, sinceramente? Ainda bem.
Ser mãe vira tudo do avesso. E, no avesso, descobrimos forças que nem sabíamos que existiam.

Quando essa mulher também tem uma carreira, a equação se torna ainda mais complexa.
Não se trata de escolher entre os filhos e os sonhos.
É sobre aprender a reorganizar o tempo, os limites e, principalmente, as crenças que nos ensinaram sobre o que é ser uma “boa mãe” ou “profissional de sucesso”.

Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicam que 48% das mulheres
perdem seus empregos até dois anos após a licença-maternidade.

A maioria sai por vontade própria? Não.
Sai por falta de acolhimento, de flexibilidade, de oportunidades reais e de políticas internas coerentes com o discurso de “valorizamos as mulheres”.

Enquanto muitos discursos corporativos romantizam o “dar conta de tudo”, a realidade empurra mães para fora das salas de decisão.
Quantas vezes você já viu um homem ser questionado se o filho está bem durante uma reunião?
Ou ser avaliado negativamente porque não pode viajar no fim de semana por causa das crianças?
Com as mulheres, isso ainda acontece — e não raramente.

A culpa materna que tenta ocupar todos os espaços

A mulher que escolhe seguir com sua carreira não é menos mãe.
E a que decide pausar sua trajetória profissional não é menos ambiciosa.
Mas a culpa não quer saber disso. Ela vai nos rondar de qualquer forma.

Se saímos para trabalhar, é porque não estamos dando atenção suficiente.
Se ficamos com os filhos, é porque estamos “deixando de lado” nosso potencial.

E nessa corda bamba emocional, muitas mulheres adoecem em silêncio.
Carregando sozinhas a expectativa de performar com excelência em todos os papéis.

Segundo a pesquisa “Saúde Mental das Mães” da Fiocruz,
26,3% das mulheres com filhos pequenos relataram sintomas de depressão.

A verdade é que a culpa é um sentimento treinado.
E como qualquer crença, pode ser ressignificada.
Não se trata de não sentir culpa.
Mas de não permitir que ela nos paralise.

Maternidade também é potência

Há uma força quase inexplicável que nasce quando uma mulher tem um filho.
Ela pode até duvidar dela mesma. Mas não duvide: ela se reinventa.
Na dor, no amor, na rotina exaustiva.

Ela aprende a negociar com o tempo.
A ter foco como nunca antes.
A encontrar sentido no que antes era só meta.

Mulheres mães desenvolvem mais rapidamente competências
como empatia, priorização, escuta ativa, resiliência e resolução de conflitos.

Mas por que isso ainda não é reconhecido como diferencial competitivo nos processos seletivos?
Quando a maternidade é vista como “obstáculo”, a empresa perde uma profissional com garra, inteligência emocional e capacidade de resolver problemas em tempo recorde.
Uma mãe não tem tempo a perder — e por isso ela foca no que realmente importa.

A carreira não precisa ser uma linha reta

Uma das maiores armadilhas que nos impuseram é a ideia de que o sucesso tem um formato padrão.
Como se a trajetória tivesse que seguir sem pausas, sem mudanças, sem desvios.
Como se não pudéssemos parar, recalcular, recomeçar.
Mas quem disse que uma carreira precisa ser linear para ser grandiosa?

Dados do LinkedIn mostram que, após pausas na carreira,
70% das mulheres enfrentam dificuldades para se recolocar no mercado.

Agora me diga: o problema está nelas ou na forma como o mercado enxerga essas pausas?
Toda pausa tem potência.

A pausa para cuidar de um filho, ensina o que nenhum MBA é capaz de ensinar.
Disciplina. Rotina. Flexibilidade. Entrega. Amor.
Gestão de tempo real. Comunicação com diferentes perfis.

Resiliência diante de noites mal dormidas e manhãs que pedem um sorriso mesmo quando tudo está difícil.
Se isso não é liderança, o que mais seria?

Os desafios que continuam existindo

É claro que não dá para romantizar a sobrecarga.
Ser mãe e trabalhar no Brasil, ainda é desafio diário.

80% das mulheres são as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos, segundo o IBGE.
E, ainda assim, recebem, em média, 22% a menos que os homens, mesmo ocupando o mesmo cargo.

É por isso que precisamos falar mais sobre isso.
Precisamos normalizar que mães também são ambiciosas.

Que mães também querem crescer, liderar, inovar.
Que mães podem ser promovidas. Que mães podem viajar a trabalho — ou recusar, sem culpa.
Que mães podem ocupar lugares de decisão.

O que precisa mudar nas empresas?

O mundo do trabalho precisa entender que o futuro é flexível, diverso e humano.
E isso começa com políticas que façam sentido para a vida real.

Flexibilidade de horários.
Licenças parentais estendidas e igualitárias.
Apoio psicológico.
Espaços de escuta.

Lideranças que não punam a maternidade.
Cultura que não cobre 200% de entrega de quem já entrega 300% todos os dias.

Mais do que benefícios, estamos falando de respeito.
De enxergar a mulher como ser integral — mãe, profissional, esposa, filha, aluna, empreendedora.
E que não precisa escolher um único papel para ser validada.

Para as mães que me leem…

Se você já duvidou de si.
Se já chorou por sair de casa com o coração apertado.
Se já se sentiu culpada por comemorar uma promoção.
Se já sentiu que ninguém entende o esforço que é continuar…

Eu quero te lembrar: você é extraordinária.
Não porque dá conta de tudo.
Mas porque escolhe, todos os dias, continuar.

Você não precisa ser perfeita.
Precisa ser fiel ao que acredita.
E construir uma carreira com o seu nome, o seu ritmo, o seu jeito de fazer acontecer.

Para as empresas que ainda não entenderam…

A mulher não precisa se adaptar à empresa.
A empresa precisa se reinventar para não perder talentos como ela.

Porque enquanto vocês ignoram o valor de uma mãe, outra organização mais consciente acolhe — e cresce junto.

E para os que ainda pensam que a maternidade atrapalha, eu deixo um lembrete:

Filhos não atrapalham carreiras.
Falta de estrutura, sim.
Falta de empatia, sim.
Falta de visão, ainda mais.

E então, bora?

Autor

  • Tati Souza

    Dirige um grupo de empresas que tem como propósito mudar o mundo a partir da transformação das pessoas. Fundadora do Instituto Muito Além de Cinderelas, uma ONG que tem como premissa o empoderamento feminino através da educação. Idealizadora do Conceito CHAVE e autora dos livros Bora fazer valer a pena: a CHAVE para transformar sua vida (2019), Comportamento: Tendência ou Escolha? (2020), Quem quer ser líder? (2021), Muito Além de Cinderelas (2022) e Quem você pensa que é? (2023) e E Agora? Como, onde e por que recalcular a rota de sua vida (2024). Cria e apresenta diversos Treinamentos na área de Impacto Social, Liderança, Motivação e Comportamento no Brasil e Exterior. TEDx Speaker, Graduada em Gestão de Pessoas. Head Trainer. Idealizadora do Circuito Mulher, um evento, que está em sua 8ª edição, onde reúne participação de mulheres dos 9 países de Língua Portuguesa, tendo uma de suas edições realizadas em Moçambique

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