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Uma vez minha filha me disse que, só porque eu nunca tinha visto um monstro, isso não significava que monstros não existiam.

Essa afirmação, tão bem articulada de acordo com um pensamento lógico, me fez pensar em todos os monstros que nunca vi pessoalmente, mas que sei que existem porque vejo no noticiário, como os assassinos, pedófilos, sequestradores e outros seres humanos que fazem maldades.

Em seguida, tentei enxergar através do ponto de vista dela, para entender melhor os monstros que lhe causavam medo.

Entendi que não adiantava dizer que vampiros não existem, que o lobo mau só aparece em contos de fada e que lobisomem é só uma lenda. Esses argumentos só fazem sentido para um adulto que conhece e acredita na ciência e em fontes de informação confiáveis.

Na cabeça dela, a chance de um monstro surgir era parecida com a probabilidade de ocorrer um pesadelo durante a noite, isto é, algo que de vez em quando acontece.

Então, em vez de continuar afirmando a não-existência dos monstros, a forma mais eficiente de diminuir o seu medo era mostrando que nós estávamos seguras.

Pensando nisso, contei a ela que a porta de nosso apartamento fica trancada e que só entra quem tem chave, expliquei que só entra no prédio quem o porteiro autoriza, mostrei as câmeras de segurança, a rede de proteção na janela (caso algum vampiro viesse voando) e tudo o mais que poderia nos proteger da chegada de monstros.

Se mesmo assim um monstro conseguisse chegar perto dela, ela poderia fugir para longe, gritar pedindo socorro e sempre poderia pedir minha ajuda, ou a de outra pessoa que ela também confiasse. Assim, começamos a falar a mesma linguagem e ela concluiu que não precisava ter medo.

Esse episódio me fez pensar na necessidade de entrar no mundo da minha pequena para conseguir me comunicar bem com ela. Para isso, nós duas temos que utilizar a mesma linguagem, precisamos enxergar o mundo a partir do mesmo ponto de vista.

Afirmar o que nos parece óbvio não faz com que a mesma coisa seja óbvia para a criança. Por mais clichê que essa frase seja, o fato é que experiência não é transmissível. Cada um precisa aprender de acordo com suas próprias vivências.

Então, enquanto o universo da minha pequena ainda é densamente povoado por fadas, sereias e monstros, o melhor que consigo fazer é entrar no seu mundo de magia com ela e ajudá-la a construir um campo de força que a mantenha sempre em segurança, protegendo tanto dos monstros que aparecem nos pesadelos dela, quanto dos monstros que eu tenho medo.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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