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Quando fui chamada para produção do programa Boas Vindas do GNT, confesso que fiquei apreensiva. “Putz, acompanhar mulheres em trabalho de parto para um reality na TV? Nunca nem curti essa história de gravidez”.

Resumo: depois de 3 temporadas, o BV já tinha se tornado o trabalho mais significativo da minha vida, o lindo universo da partolândia já tinha transformado a forma como eu via o mundo e quando decidimos planejar um filho, a única certeza que eu tinha, era que queria um parto humanizado e que se tudo estivesse bem, seria um parto normal.

A luta diária na gravidez

Tive hiperemese gravídica grave, esofagite, emagreci 13kg, fiquei internada com desidratação, extrai um dente e fiz uma endoscopia sem anestesia, rolou uma deprê sinistra, e eu só focava em estudar sobre parto e agradecia a Deus porquê com o José tudo estava bem e poderíamos ter um Parto Natural.

A escolha da equipe

ERREI justamente aí. Confiei na forma simples como sempre faço as coisas e acreditei que daria certo (DEU, mas não como planejei). Meu ginecologista me cobrou uma fortuna e eu não tinha um pingo de confiança de que na hora H, ele me apoiaria num PN (Parto Natural). Eu estava  vivendo um dia por vez, passando mal 24hs e não tive forças para procurar outra equipe há tempo.

Visitamos todas as maternidades possíveis de Jundiaí, decidimos contratar uma obstetriz (por fim, Rebeca não me acompanhou no parto, mas foi uma querida tirando dúvidas, se fazendo presente e me dando segurança) para me acompanhar em casa até o trabalho de parto ativo, e depois iríamos para o plantão do Hospital Paulo Sacramento – Jundiai (até então, na visita e pesquisas era o hospital amigo da mulher e da criança, apoio ao PN e blablabla).

40 semanas de gravidez

Me consultei com o GO (Ginecologista),  que me liberou para uma pequena viagem. Fomos a uma festa, dancei até o chão (chocando a sociedade barrabonitense), tudo na esperança de finalmente começar a sentir o trabalho de parto e nada, zero dilatação, colo lacrado, bebê alto. Voltamos e o médico havia indicado que de 3 e 3 dias eu deveria ir ao hospital fazer cardiotoco e lá fui eu toda felizinha, confiando que lá encontraria o hospital “amigo”.

Medo, solidão e uma decisão difícil

No plantão, uma médica bem jovem, apressada e sem noção se assustou quando viu a ultrassonografia, disse que o bebê provavelmente já teria mais de 4200kg e que eu deveria ter feito uma cesárea com 38 semanas e quando ela viu um exame de glicemia que estava no limite então, me rotulou como diabética e praticamente me trancou no consultório. Me senti acuada, ela não ouvia, disse que a gente era leigo e não tinha ideia do perigo de morte que estávamos colocando nosso bebê.

Apesar de ter muita convicção do que queria, em como estava acompanhando tudo e a certeza de que estava tudo bem, dei uma baqueada! Ela disse que tinha muitas chances do bebê nascer morto, eu desabei!

Ela quis marcar a cesárea para o outro dia cedo, o cardiotoco estava 100% e eu disse que voltava depois porque eu queria ir para casa; saí praticamente fugida.

Enviei mensagem para que ginecologista, só queria mais uma consulta para me sentir segura e ele me disse exatamente isso: “Não posso mais te atender porquê você escolheu ter no plantão do hospital e só posso te atender no particular, se quiser.”

Meu chão abriu, me senti SOZINHA, uma mercadoria com preço. Orei a noite toda, respirei, pensei na situação, nos contras, nos prós e contras, tentei contato com Drª Patrícia, que mesmo sem agenda para me atender, me deu atenção, força e carinho e Anderson, no desespero de me ver sofrendo disse: “Vamos para o Rio e lá a Drª Bernadete te ajuda (agora soa até engraçado kkkk)”

Pela manhã, sentei na cama e disse: amor, chega! Não dá mais pra mim! Depois de chorar muito voltei pro plantão do HPS, (vai que dava sorte). Aconteceu de novo, uma médica um pouco mais simpática, mas com a mesma postura e que ainda disse que eu teria que tirar “isso aí do cabelo” pra cesárea.

Enquanto ela falava, decidi que cesárea por cesárea eu iria para o Hospital Santa Elisa, que não me prometeu ser humanizado, mas que eu tinha ido a gravidez toda e já me conheciam.

Cheguei no HSE murcha, mas tranquila com a decisão de que eu tinha ido muito longe mesmo sozinha, estava com 40 semanas e 5 dias (sem amparo médico), numa cidade com atendimento obstétrico enraizado nas intervenções.

Fui reconhecida pelo segurança, pela moça da recepção, pelos enfermeiros e todos sorriam e diziam: chegou a hora, hein!

No plantão, duas médicas (novinhas e muito queridas) me atenderam e me OUVIRAM! Perguntaram se eu não queria induzir (zero dilatação, colo fechado) lembrei do aborto, das 12hs esperando o colo abrir, do sofrimento da espera artificial, de como eu desejei passar por isso de forma natural, na minha casa e decidi que não! 

Aquilo tudo ainda poderia ser muito mais doído, traumático e frustrante do que já estava. Anderson ao meu lado o tempo todo, me perguntou mil vezes se eu estava certa da escolha pela cesárea.

Nos corredores encontrei médicos que me atenderam ao longo da gravidez, gente a fim de ficar me acompanhando. Encontrei muito CARINHO!

Já no quarto, eu perguntei para enfermeira quem estava no centro cirúrgico. Eu disse que não queria ser atendida pela Drª Rafaela (que em um atendimento insinuou que eu havia provocado o aborto, que não queria trabalhar e que estava rejeitando a gravidez) e uma enfermeira extremamente carinhosa disse que ia verificar e me disse que tudo daria certo.

Alguns minutos e um anjo chamado Andrea entrou no quarto. Disse que era chefe da enfermagem do centro cirúrgico e perguntou como eu estava. Desabei a chorar, e disse frustada que eu não queria uma cesárea porque sonhava com um parto humanizado, mas que estava exausta, tinha feito plano de parto e não queria ficar sozinha no pós operatório. Então, ela me olhou e disse: “Vou fazer tudo o que der para fazer ser como você sonhou, mesmo sendo uma cesárea.”

Os maqueiros chegaram sorrindo e pedindo pro Anderson acompanhar a gente (se preocuparam em pedir pro Anderson guardar meus óculos para colocar em mim quando saísse da cirurgia).

Enquanto ele trocava de roupas me colocaram no corredor onde eu poderia vê-lo. Entramos no centro cirúrgico e Anderson ficou ao meu lado o tempo TODO. Drª Flávia, anestesista, foi muito delicada, simpática, fez tudo pra me distrair.

Ambas, ela e a Drª Gabriela, muito concentradas, me olhavam o tempo todo e dizia o que e porque estavam fazendo os procedimentos. Só sentia a mão do Anderson apertando a minha e percebia ele ligado em tudo. Passei mal pra caramba por causa da anestesia, pressão caiu, vomitei, falta de ar e de repente, ouço Anderson dizendo: amor, ele é muito cabeludo!

TUDO PAROU! Eu vi a médica passando José para a pediatra, uns braços e pernas enormes, cheio de cabelo e uma tranquilidade contagiante. Só lembro de perguntar se ele estava bem e de ouvir a médica dizer: ele está ótimo, enorme e fazendo xixi nas tias todas aqui!

Nunca na minha vida vou me esquecer daqueles olhinhos brilhando, vivos e tranquilos; colocaram ele num rolinho e ele parecia um pacotinho! Era meu presente.

Foi mais que lindo, foi emocionante e foi humano demais.

Vi Andrea com meu plano de parto nas mãos conversando com a pediatra,  lembro que ela pegou na minha mão e disse: vou agora, depois passo para te ver (o plantão dela já havia acabado, mas ela ficou comigo).

José não foi aspirado, não colocaram colírio, não deram banho, como eu estava passando mal pedi pro Anderson pegar ele e fazer o contato pele a pele. Eles ficaram mais de 2hs grudados um ao outro e ao meu lado enquanto eu me recuperava da anestesia.

Fomos pro quarto e o resto é só AMOR.

Foi como eu sonhei? NÃO!
Foi melhor do que eu esperava? MUITO!

Uma cesárea humanizada e respeitosa! Se foi necessária? Não sei, não sou médica e naquele momento eu não tinha um para confiar.

Estou tranquila, realizada. José está seguro, nasceu tranquilo, MADURO! O colostro desceu, o leite chegou com tudo (estou doando pro banco de leite).

Lutei muito para ele chegar bem e deu certo. Isso importa 

Agradecimentos eternos a equipe do plantão do dia 02/05/18 que foi SURPREENDENTE, me senti em casa, acolhida e tratada com única.

P.S.: Andrea voltou depois para me ver e disse que todo o hospital comentava que tinha sido uma cesárea muito emocionante, e paras enfermeiras eu virei a mãe que não queria que tirasse o vernix do bebê.

P.S.2: Anderson vc foi mto mais que parceiro, você foi (está sendo) um pedaço do meu corpo, nunca te senti tão próximo, nunca me senti tão acompanhada, sem você seria IMPOSSÍVEL! Você é mto mais do que eu jamais sonhei. Te amo.


Autora: Deh Bastos, 34 anos, publicitária, produtora audiovisual e agora mãe do José. @criandocriancaspretas.

1 COMENTÁRIO

  1. Deh Bastos que relato maravilhoso! parabéns pela sua atitude e coragem. lutar contra o sistema não é fácil para ninguém, principalmente quando ouvimos que o pior pode acontecer com nosso bb. Anderson, seu marido-parceiro, continue assim, prestativo e amoroso. Que a vida de vocês seja sempre regada por coragem-parceria-amor!!! Obrigada por compartilhar sua história!

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