Tempo de leitura: 6 minuto(s)

21 turmas.

Aulas de Filosofia e Sociologia.

É final de etapa: fechar diários, corrigir provas, alunos cercando no corredor, coordenação perguntando sobre o fechamento das notas. Estou cansada. No caminho de volta o fone de ouvido, o celular na mão, spotify ajudando a embalar os sonhos de uma vida mais livre. O ônibus lotado, pasta cheia de provas e livros, muita gente em pé (inclusive eu) e ansiedade que vai aumentando conforme chega o momento de descer.

Já são quase 21 horas, está tarde e eu fui assaltada duas vezes no último ano. Medo de estupro, medo da morte. No caminho para a casa, reflexões sobre a condição social do mundo, a vida política, justiça de gênero, revolta danada.

Chego em casa sã e salva, agradeço aos deuses. Abro a porta, duas crianças me esperam: uma de cinco e outra de sete anos. Dou um abraço apertado, enquanto olho o entorno tomado pela sujeira e bagunça. Roupas espalhadas no chão, piso da cozinha estilo pós-festa em república, banheiro tipo rodoviária.

Dever na mochila do menino. Roupa de uniforme sem lavar. Janta por fazer. Esboço raiva e tristeza. Resmungo enquanto cato a roupa do chão e chamo o menino para o banho. “Amanhã tem aula cedo”, digo brava. Eu também acordo cedo. Ainda tenho que enviar três provas de segunda chamada.

Banho nas crianças, lanche, escovar dentes e mais meia hora para fazer dormir. Só então sobrará tempo para… fazer as provas. Cansada e aparentemente decepcionada, alguém me nota: um homem adulto, aquele que dia escolhi para ser um companheiro e pai dos meu filhos pergunta o que há comigo. É uma pergunta retórica. Ele não quer saber a resposta. Na verdade, antes que eu responda, ele se adianta e em voz alta diz: “não quero saber de suas reclamações, estou cansado, fiquei com os dois o dia inteiro [está desempregado por opção] e estou com a cabeça cheia”.

Tenciono responder e procuro, pela milionésima vez, demonstrar o quanto essa postura impede o florescimento das minhas subjetividades. Ele responde que essa vida não foi feita pra ele. Penso que para mim também não foi, aliás essa vida não foi feita para ninguém. Retorno a pensar nos meus sonhos. Penso no sonho da maternidade também.

Sinto mágoa por ter visto esse sonho se tornar uma realidade diferente das minhas expectativas. Expectativas introjetadas em mim desde muito cedo, quando eu empurrava o carrinho das minhas bonecas e fantasiava ser a mãe delas. Tornei-me mais triste quando fui me despedindo aos poucos dos meus outros sonhos depois que a maternidade mostrou a sua face até então desconhecida por mim.

Como nunca me disseram que ser mãe é lindo, mas dói? Pensei em quantas mulheres/mães me disseram verdades sobre essa nova condição. Nenhuma, acredito. Pelo menos em uma época em que a internet ainda não era meio para o compartilhamento das nossas verdades mais escondidinhas. É preciso, nessa estrutura machista, manter a pose de mãe santa, mãe que é só amor e nunca dor, mãe forte que tudo supera e tudo doa, mãe que entende que a “felicidade do filho é a sua também”, fim de papo. E é nesse lugar que nasce a culpa. Porque lá no fundo a mãe nunca deixou de ser gente, e ser gente é ser um monte de coisa – e não uma coisa só.

Subjetividade nenhuma morre com a maternidade, pelo contrário. Mas nos fizeram acreditar que morre sim. E aí, se no fundo você sente que somente a maternidade não a torna plena e completa, então nasce a sementinha que cresce na mesma medida que os filhos: a culpa. Culpa e desejos de liberdade, mistura perigosamente estranha, parece uma vontade de correr e ficar parado ao mesmo tempo.

Percebi num momento de lucidez que nunca sobrou muito tempo para que eu pudesse fazer algo além da cervejinha no final de semana, acompanhada dos muitos cigarros que faziam-me uma companhia silenciosa, mas agradável. Esses hábitos foram, inclusive, a minha “felicidade clandestina”, nunca abri mão. Até que até eles deixaram de fazer sentido no meio do turbilhão de afazeres domésticos e obrigações que tomaram conta da minha vida. E sim, podia ser diferente se o mundo não achasse que é minha a única responsabilidade pela casa e pelos filhos. Se os papeis de gênero não fossem rígidos feito rocha, se eu não tivesse que ver a minha relação conjugal desmoronar por cobrar do companheiro a divisão de tarefas desde o primeiro momento em que começamos a “dividir” a vida. Teria eu que brigar para chegar em minha casa e vê-la limpa e arrumada? Teria eu que abandonar o mestrado por falta de energia, ânimo e tempo para me dedicar ao que eu acreditava? Seria necessário lutar pela minha subjetividade enquanto eles a tem garantida desde o nascimento?

Da digressão, voltei a catar as roupas no chão. E ele foi fazer capoeira. Coloquei as crianças na cama, elas dormiram e eu fiquei só. Olhei para os dois, agradeci pela alegria de vê-los crescer. Agradeci pela força quase inabalável que eles me possibilitaram ter. Não é culpa deles. Ser mãe é, por si só, um presente, mas a maternidade não – ela representa a opressão de uma sociedade que sendo patriarcal, quer nos ver estanques, invisíveis e silenciosas.

Não fiz as provas. Decidi abrir um vinho que antes fora comprado para ser bebido em companhia. Liguei o som mais uma vez. Ascendi um cigarro e decidi escrever. Brindei a minha companhia. Repensei os caminhos porque eles de fato existem para mim e para qualquer outra mãe/mulher. As provas podem esperar mais um dia, o que não pode esperar mesmo é a minha vida que com braços fortes eu pegarei no laço.

Autora: L.S.L

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui