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Lembro-me perfeitamente de um pensamento que perdurou durante os primeiros meses após a chegada do meu segundo filho. É uma sensação que está bem atada a memórias de choros incessantes, músicas infantis modo “repeat”, um cansaço indizível e brinquedos espalhados pelo chão. Eu olhava tudo aquilo e pensava: “quando, QUANDO eu serei só minha de novo? Meus dois filhos, ainda tão pequenos, tão dependentes, tão inteiramente entregues a mim. Uma responsabilidade da qual não posso fugir, nem um diazinho, nem por um breve instante. Que saudade de mim!” 

Confesso que senti medo. Medo dos dias e meses seguintes, medo de não dar conta, medo de como seria a Gabriela mãe de dois. No auge das minhas privações de sono, já meio grogue, pensava: gente do céu, não dá nem pra devolver, esses meninos saíram de dentro de mim! E essa música da Galinha, que já entranhou no meu cérebro e não desgruda nunca mais? Quando vou poder escutar as minhas músicas? Arre!

Senti medo e frustração, sim. Mas não deixei eles me vencerem. Pensei assim: “eu (sobre)vivo um dia. Depois acordo e (sobre)vivo mais outro. E assim vou, sabe? Os bebês estão aqui, eles vão me ensinando a ser uma mãe melhor.”

 E assim fui, crescendo por dentro, junto com eles. Olhando minhas limitações, exercendo auto-compaixão, recomeçando (às vezes mais de uma vez por dia). Fui entendendo que essa era a nova Gabriela, a mãe do Daniel e do Mateus. Aí, aos poucos, fui deixando a saudade de mim ir embora, enquanto acolhia um novo sentimento em minhas asas de mãe: a gratidão por poder aprender, com meus filhos, a ser melhor. Não fosse por eles, eu jamais olharia pra mim com tanta intensidade e jamais reuniria tantas forças para buscar ser melhor.

Passaram-se meses e meses desse caminho que não acaba. E outro dia, enquanto lavava a louça do lanche da tarde ouvindo uma das minhas bandas preferidas no fone de ouvido, pensei comigo: “olha, estou ouvindo uma música que gosto. Não é a Galinha. Esperei tanto por esse dia!” Sorri, olhando pra trás e pra frente: reconhecendo as batalhas vencidas, e avistando o belo caminho que ainda preciso percorrer. Fato é: Não tenho mais saudade de mim. Meus filhos me tornaram alguém muito melhor do que eu era.


Autora: Gabriela Andrade é mãe de dois passarinhos que sonham em voar voos mais altos. Professora por formação, nas reviravoltas da quarentena fez a opção de deixar o emprego para se dedicar à família. Atualmente escreve para mães, pais e filhos no perfil @temamorpravidatoda.

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