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Mudaram todos os questionamentos, então, as respostas que eu já tinha encontrado não bastavam mais. Os novos assuntos não demandavam somente amor incondicional, bom senso e estabilidade. Confesso que senti saudades de quando minhas principais dúvidas giravam em torno das escolhas que eu tomaria a respeito de alimentação e sono da minha filha.

Agora, as decisões não eram mais exclusivamente minhas, ela também opinava, com embasamentos que alternavam entre as vontades e birras da menina que ela tinha sido até então, com o conhecimento da mulher que ela estava se tornando. No que diz respeito à nossa relação de mãe e filha, foi como se eu tivesse tirado a carta “volte ao início do jogo”. Com certeza, demoraria até eu conseguir reconquistar o lugar que eu já ocupava antes.

A primeira mudança, mais fácil de notar, é que deixei de planejar as atividades para passarmos nossos fins de semana juntas. Não é que os eventos sociais dela tenham se tornado muito mais frequentes, só que comecei a não estar mais incluída na maioria deles. Deixei de ocupar minhas tardes de sábado nas festas de aniversário dos amigos dela e passei a só levar e buscar. Gradativamente, o mesmo foi acontecendo com os passeios que costumávamos fazer juntas.

Muito se fala sobre a síndrome do ninho vazio, quando os filhos vão morar em suas próprias casas, mas a verdade é que o ninho começa a esvaziar na pré-adolescência, quando os filhos começam a ganhar autonomia nos fins de semana. Depois de tantos anos de programação infantil, pode ser até difícil decidir o que fazer nesses momentos de plena liberdade enquanto o adolescente está em festas e passeios com os amigos.

Por outro lado, surge a crescente preocupação sobre como o adolescente está lidando com essa autonomia. Algumas mães optam por aplicativos que monitoram os celulares de seus filhos de diversas formas, outras tentam se manter próximas e informadas através da conversa. Há mães que deparam com barreiras que parecem intransponíveis, e outras que tiram de letra. De qualquer forma, a única semelhança com a maternidade durante a infância é que, mais uma vez, não existe fórmula mágica nem manual indicando o que é certo ou errado. Então, o mais recomendado continua sendo dar o seu melhor e torcer, sempre torcer para estar caminhando numa boa direção com o adolescente.

Como se tudo isso não bastasse, os assuntos que sempre estiveram em pauta, como alimentação, sono, estudos e atividades físicas, ganham outro viés. Os adolescentes de agora, que já cresceram em contato com as redes sociais, valorizam as fotos, imagens e a aprovação dos outros ainda mais do que as gerações anteriores.

Esse fato tende não só a aumentar a pressão para que todos sejam fortes, magros, bonitos, ou atendam qualquer outro requisito considerado pelo grupo como digno de admiração, mas também pode levar a algum grau de alienação ou superficialidade do adolescente, como se nada mais fosse importante além disso. A combinação da cultura das redes sociais com os exageros da adolescência podem trazer preocupações com distúrbios alimentares, com excesso de atividade física não supervisionada, com o rendimento escolar e com o assunto mais complicado de todos: com o relacionamento dos adolescentes entre si. As amizades, as brigas, os namoros, tudo isso combinado com a exposição e os perigos das redes sociais e, principalmente, com a explosão hormonal da adolescência, formam um labirinto onde as mães podem se perder com facilidade.

Assim como na infância dos filhos, não existe um mapa, muito menos um X marcando o ponto a ser alcançado. Ser mãe continua sendo caminhar no escuro, o que mudam são as bifurcações que aparecem pelo caminho.

Por mais surpreendente que possa parecer, mesmo com tantas dificuldades, ser mãe de adolescente também é uma delícia. Acompanhar de perto o amadurecimento da minha filha é tão gratificante quanto ver seus primeiros passos ou suas primeiras palavras. Perceber que em breve seremos duas adultas, conversando de igual para igual, me dá uma sensação de missão (quase) cumprida.

A certeza de que tudo tem valido a pena, mesmo as escolhas equivocadas que eventualmente tenham sido tomadas devido à falta de instruções claras sobre a maternidade. A criança que ela era deixa saudade sim, uma nostalgia tão grande que chega a apagar muitos dos momentos difíceis que passamos. Mas a certeza de que o melhor ainda está por vir, isso permanece igual a quando saí da maternidade com minha bebê no colo.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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