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Dia 19 de dezembro Liz completa nove anos. E desde os três eu não sei o que é acordar com ela do meu lado todos os dias. Não escuto a voz dela me dizendo bom dia e não dou um beijo de boa noite quando ela vai se deitar.
Não faço as tarefas da escola com ela e tampouco posso estar presente nas reuniões escolares.
Ela sente falta, embora não transpareça. E eu sinto como se fosse a pior mulher do mundo, embora também não transpareça.
Minha ausência tem uma justificativa “socialmente aceitável”: estou fora a trabalho e é esse emprego que nos sustenta. Graças a ele é que posso comprar material escolar, pagar a van, a comida e oferecer plano de saúde. Pelo menos é o que digo a mim mesma todos os dias. Meu ritual matinal consiste em sair da cama, calçar os chinelos, ir ao banheiro e me olhar no espelho para dizer: primeiro por ela e também por mim.
Porque saber que o sustento dela está garantido me permite dormir melhor. Por reconhecer que a cada gripe, infecção de garganta, virose e até mesmo dor de dente, ela vai ter recursos para ficar melhor. Por saber que ela está segura.
Ela vive com meus pais e nós nos vemos todos os finais de semana. Até tentei, por um tempo, percorrer os quase 100km diariamente, para vê-la todas as noites. Mas aos poucos, minha saúde e minha paciência foram deteriorando.
Quando estávamos juntas, não conseguia lhe dar atenção ou por estar muito cansada, ou por ter uma crise de enxaqueca ou ainda uma gripe avassaladora. Precisava dormir e ela precisava da minha voz. Ela queria conversar, brincar, ver desenho. E eu só queria não ter que me incomodar por causa disso.
Mas me incomodava. E acabava que o abraço e o beijo de que sinto falta todos os dias se transformaram em tristeza.
Não exatamente tristeza, mas um cansaço triste mesmo, desses que você não sabe se quer chorar ou dormir.
Então eu fiz a escolha de me mudar.
E escolhi deixá-la. Não por falta de amor, como muita gente idiota (e que não paga minhas contas) costuma pensar. Mas por excesso de amor.
Tirar minha filha da escola, do convívio com os amigos, com os avós, com nosso cachorro. Tirá-la do lugar em que se considera segura, seu ponto de referência, e colocá-la numa escola de tempo integral, numa cidade em que não conheceria ninguém, apenas para passar poucas horas do dia comigo não me pareceu sensato. Seria egoísmo de minha parte.
Hoje, a parte dolorida dessa escolha já está meio adormecida. E quando me olho no espelho, antes de dormir, penso que é menos um dia longe dela. E quando o fim de semana chega, nossos dias juntas, ainda que poucos, valem a pena. Conversamos, passeamos, brincamos de lego, boneca, cabeleireira, fazemos pipoca e assistimos filmes, vamos ao cinema.
E hoje ela não mais reclama da saudade quando nos vemos. Ela apenas diz que somos melhores amigas. E que se ela fosse viver mais uma vez, queria ser minha filha de novo.

Autora:

Amanda Izidoro, Mineira, 35 anos, escritora e funcionária pública. Sou mãe solteira há 8 anos, desde que o pai da minha filha fez o que muito homem sabe fazer de melhor que é pular fora! Trabalho longe da minha filha e conto com a ajuda dos meus pais para cuidar dela da melhor forma possível.

1 COMENTÁRIO

  1. Uma guerreira! Que benção que tem a ajuda dos seus pais! Ninguém tem o direito de julgar ou criticar! Só quem está vivendo a situação pode saber o quanto esse tipo de decisões são difíceis! Força! A sua filha já consegue compreendê-la e dar-lhe valor…

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