Poesia – Enquanto meus filhos cresciam, eu aprendia a permanecer

Há mães que escrevem sobre flores,
sobre sonhos, sobre o amor.
E há mães que escrevem das próprias cicatrizes,
transformando em poesia aquilo que um dia foi dor.

Eu sou uma dessas mães.

Sou mãe.
E antes de aprender a escrever sobre a vida,
precisei aprender, muitas vezes, a sobreviver a ela.

Por muito tempo, não compreendi meus próprios temporais.
Havia dias em que o mundo parecia grande demais,
o coração, barulhento demais,
e eu não sabia dar nome ao que acontecia dentro de mim.

Meu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar chegou tarde.
Depois de muitas batalhas travadas sem mapa,
sem explicação, sem saber exatamente contra o quê eu lutava.

E enquanto eu tentava entender a mim mesma,
meus filhos cresciam.

Eles viram coisas que nenhuma criança deveria precisar ver.
Conheceram preocupações que não pertenciam à infância,
silêncios que escondiam sofrimento
e dias em que a mãe que eles amavam
não conseguia ser a mãe que gostaria de ser.

Isso talvez seja uma das partes mais difíceis da minha história.

Porque uma mãe pode suportar muita coisa por si mesma,
mas quando percebe que sua dor também tocou aqueles que ama,
o coração aprende uma palavra difícil: culpa.

Eu conheci o fundo do poço.
Conheci a vontade de desaparecer.
Houve momentos em que minha própria existência pareceu pesada demais.
Houve tentativas de partir,
feridas que fiz em mim mesma,
e marcas que hoje carregam histórias que não precisam mais ser repetidas em silêncio.

Mas eu fiquei.

Não porque tenha sido fácil.
Não porque tenha sido bonito.
Não porque eu tenha sido forte todos os dias.

Eu fiquei porque, mesmo quando eu não conseguia enxergar um amanhã,
alguma coisa dentro de mim ainda insistia em procurar a manhã.

E talvez seja por isso que hoje eu escreva.

Escrevo porque algumas dores não cabem na fala,
mas encontram abrigo quando viram palavra.

Escrevo porque descobri que uma cicatriz também pode virar poesia,
que uma lágrima pode molhar uma página
e fazer nascer uma nova história.

Escrevo porque sou mãe.

E porque meus filhos precisam conhecer não apenas a mulher que um dia adoeceu,
mas também a mulher que buscou ajuda,
que caiu, levantou, caiu novamente
e continuou tentando aprender a caminhar.

Não quero que eles carreguem minhas dores.
Quero que, um dia, carreguem minha coragem.

Quero que saibam que a mãe deles não foi perfeita.
Foi humana.

Que houve dias em que ela precisou ser cuidada.
Dias em que precisou pedir ajuda.
Dias em que escrever uma única frase já era uma forma de dizer:

“Eu ainda estou aqui.”

E talvez essa seja a coisa mais importante que uma mãe escritora pode ensinar.

Que nem toda história precisa terminar no capítulo mais escuro.

Que existem páginas depois da dor.

Que é possível escrever novamente
mesmo quando a mão treme,
mesmo quando a tinta se mistura às lágrimas,
mesmo quando a vida parece não ter mais rima.

Porque eu descobri que a esperança não precisa chegar fazendo barulho.

Às vezes ela chega baixinho.

Chega como um filho chamando pela mãe.
Como uma página em branco.
Como uma manhã depois de uma noite difícil.
Como a vontade de tentar mais uma vez.

E foi assim que comecei a escrever minha própria permanência.

Não escrevo para apagar o que vivi.
Escrevo para dar outro significado ao que vivi.

Minhas cicatrizes fazem parte da minha história,
mas não são o título dela.

Meu diagnóstico faz parte de mim,
mas não é tudo o que eu sou.

Eu sou mãe.
Sou mulher.
Sou escritora.

E, entre tantas coisas que a vida me ensinou,
talvez a mais preciosa tenha sido esta:

algumas mães dão à luz seus filhos.

Outras, depois de quase perderem a própria vida,
precisam aprender a dar à luz a si mesmas.

Eu ainda estou aprendendo.

Mas escrevo.

E enquanto houver uma página em branco diante de mim,
haverá também a possibilidade de um novo começo.

Porque meus filhos cresceram vendo a minha luta.

Agora, eu quero que cresçam vendo a minha transformação.

E se algum dia perguntarem o que minhas palavras significavam,
eu espero que encontrem a resposta em cada página:

eu escrevia para não deixar morrer em mim
a mulher que ainda tinha histórias para contar.

Samantha Lauanne

@samantha.lauanne

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