Mãe e filho

A loving embrace between a grandmother and her grandson at home, depicting warmth and family bonds.

O filho chega da escola, atira a mochila no chão da sala e corre para o quarto. Enfia a cabeça embaixo do travesseiro. Fecha os olhos e repassa o que aconteceu na escola. Cansou de dizer para si mesmo que não jogaria, mas não resistiu. Perdeu todas as figurinhas! Deu zica. Coringou.

Após um tempo, revira-se atabalhoadamente e ele e o travesseiro vão ao chão.

— Droga! Dá tudo errado.

Soltando fogo pela boca, fala com um mano imaginário: Por que não sai logo? Por que fiquei escutando os outros gritarem “Que pog!” “Papou todas!” “Mandou bem!” Eu também queria farmar. Faltavam só 3 figurinhas. Só três figurinhas! Idiotice… Foi só L. Ainda por cima ficaram me trollando. Só porque fiquei gritando que não era justo, que bateram com as figurinhas levantadas, que não tava certo. E não tava mesmo! Tá ligado? Na real! Não tankei. Mariana ainda veio falar pra eu não chorar, que ela me dava as figurinhas repetidas dela. Precisava chorar? Precisava? Precisava chorar na frente dela? Isso é cringe, mano. Flopei. Só queria farmar, tá sabendo, mano? Os caras me amassaram.

A mãe, na cozinha e alheia a tudo que se passava na cabeça do menino, vai terminando o almoço. Tentou fazer tudo que ele gostava: o bife temperado esperando a hora certa para ir ao fogo, o arroz, o feijão, a farofa. Olha o relógio. Já estava na hora.

— Filho, vem almoçar. Tira a mochila do chão…

Começa a colocar a mesa.

— Filho, vem ajudar. Já está na hora.

— Não estou com fome. Vou tomar banho.

— Agora não! Você toma mais tarde. A comida está quente.

— Não dá, preciso tomar banho antes.

O filho sai do quarto e vai para o banheiro. Só quer ganhar tempo. Não tem vontade de fazer nada

— Droga de escola…

Bate a porta do banheiro.

A mãe ouve o barulho do chuveiro.

— Filho!

Bate na porta. Ele finge que não ouve. Ela volta para a cozinha.

No caminho, recolhe a mochila. Resmunga. Termina de preparar a mesa. Olha o relógio.

— Filho? Vem logo. Termina esse banho.

Nada. O tempo escorrega pelo ponteiro.

— Filho! Filho… Que chatice, filho!  Quantas vezes vou ter que chamar?

A mãe esperneia, limpa a garganta, resmunga, sapateia na cozinha. Olha o prato requentado… Todo dia a mesma coisa. Tanto tempo perdido!

Dentro do banheiro, o filho, já esquecido das figurinhas, vai se ocupando de outras inquietações. Seu alvo agora é outro. Briga com a imagem de si mesmo. Olha-se no espelho enquanto repete a lamúria materna:  

— Vem comer… Termina logo esse banho. Você não tem que estudar? Vai demorar? Já passou da hora. Você não está escutando?

Quando será que eles vão perceber que há coisas mais sérias na vida? Não notaram esse ponto vermelho, purulento, no canto direito da minha testa? Essas espinhas parecendo crateras? E esses pelos no corpo? Não estão vendo?

Examina-se com cuidado; tenta reconhecer-se para não se perder. O banheiro é o melhor lugar para passar os olhos pelo corpo. As mãos acompanham os olhos. Criam excitações. Os pensamentos o assustam, caem pelo ralo, sobem pelas paredes, voltam a enredá-lo.

—  Filho, faz uma hora que você está no banho. Olha a água, a conta da luz… Filho!

— Já estou indo, pô!

Silêncio.

A mãe recolhe-se. Desiste de chamá-lo. Tenta entender aquela revolta. Aquela oscilação diária. Onde estará seu menino?

Pouco depois, o menino aparece

— Oi, mãe, desculpa. Me perdi no chuveiro. Foi mal. F.

— F? O que você quis dizer?

— F, mãe! Perdi todas as figurinhas. Foi sus. Tiltei. Sem caô. Não tankei!

A mãe sorri. Acha que ele está só de zoeira com ela e deu de falar umas palavras sem sentido. Termina de esquentar o prato, novamente. Mostra-lhe os pacotes de figurinhas que comprou na saída do supermercado. Ele sorri. Dá-lhe um abraço.

Ele ainda é seu menino!

Autora: Maria Laurinda Sousa – @mlausousa

Revisora: Yhasmin Viriato

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal