A fita vermelha de cetim será o fio condutor para contar sobre a minha maternidade. Ela representa o fluxo menstrual que, mensalmente, anunciava se a vida continuava como estava ou se uma nova jornada se iniciava dentro de mim. Sempre foi um prazer imenso descobrir essa fita estampada em minha calcinha. Foi um certo desespero quando me descobri gestante.
Pensei que poderia ser um engano. Por três vezes me certifiquei de que os testes realmente mostravam o que estava ali: meu corpo já não pertencia só a mim, e aquela ausência da fita anunciava o temido novo — ser mãe.
Tão vibrante, ela ficou manchada pelos sentimentos contraditórios da primeira experiência da maternidade. Vieram a solidão, o mal-estar e o desafio de lidar com tudo aquilo. Muitas vezes quis rasgar e ferir esse elo… mas era impossível. Eu já estava emaranhada nele.
Senti a violência obstétrica no parto e me perguntei como dois corpos tão vulneráveis poderiam se defender. Desde ali eu sabia que seria a única a proteger aquele ser que saía de mim: meu primogênito.
Ainda assim, eu conseguia enxergar a beleza massacrada dessa fita e desejei minha segunda passagem pela gestação. Dessa vez, ela não veio estampar minha calcinha, mas alimentar um segundo ser que carregava em meu ventre. Com ele, eu queria lavar todos os limites e violências que meu corpo havia sofrido.
Foi nesse segundo encontro que vi sua maior potência. Realizei todos os detalhes mais importantes: um parto domiciliar, junto do meu primogênito. E foi exatamente assim que aconteceu. Ouvir meu filho correr para o banheiro e anunciar “Meu irmão nasceu” ecoa até hoje em mim. Cada vez que relembro esse momento, ela volta a brilhar, viva.
Manipular a placenta do meu segundo filho, fazer carimbos com diversas cores, produzir arte com ela, transformá-la em tintura e cápsulas… todas aquelas fitas vermelhas foram ressignificadas e legitimadas ali.
Ali também nascia uma nova mulher, com seus apanhados de fitas, sedenta de movimento e criatividade. Nada mais me silenciaria.
Esses dois seres humanos que saíram do meu ventre, dois meninos, também sentem as nuances desse fio que hoje percorre outras camadas, gestando novos projetos e fazendo de mim o meu próprio parir.
Existiram momentos que foram verdadeiros divisores de águas, e meus próprios filhos, sensíveis e incríveis, me ajudaram a senti-los. O primeiro movimento necessário para que a vida continuasse a pulsar foi a separação de algo que significava patriarcado e silenciamento. Depois veio o rompimento com a instituição onde mais trabalhei — o Sistema Único de Saúde —, à qual entreguei todas as cores e vibrações dessa força e que, de alguma forma, também me adoeceu.
É nessa relação com esse fio que percorre e pulsa em mim e nos meus filhos que sigo me guiando, como um balizador.
Eles sentem quando ele brilha. Sentem quando se enraivece diante das injustiças sociais e do patriarcado. Conhecem o poder desse fio que sai do meu ventre e é costurado, customizado em cada ação que minhas mãos realizam.
Percebi que a ação política da raiva, que antes enrijecia e entristecia esse fio, carregava a intenção de mudar o mundo. Mas o mundo era tão grande que acabava paralisando a própria ação.
Com o tempo e a paciência, nesse papel da maternidade, venho aprendendo a honrar, mês após mês, aquilo que sai do meu ventre. Encontro na minha menstruação um ciclo de reencontros comigo, com minha revolução de mulher, com meu sangue de mãe, que pinta e ressignifica esse sangue que antes carregava raiva e tristeza e que hoje vibra pulsante, como uma marca colocada para dançar.
Hoje minha ação política acontece quando pinto meus diários com meu sangue menstrual, ressignificando o sangue que doei para tantos e que agora devolvo à minha arte e ao meu corpo.
Autora: Thamiris Rosa
Revisão: Kátia Dias





