Amor e trabalho em três tempos

A joyful mother and son team up in the kitchen, enjoying a fun cooking session together.

Tudo novo de novo, vamos nos jogar onde já caímos.
Moska


Há uns dias, me vejo irritada com as tarefas domésticas e com o tanto que os meninos ainda precisam de mim. Isso vem logo depois de um salto nas minhas cíclicas sacadas sobre o que uns chamam de trabalho reprodutivo e outros de amor. Neste martelar de pensamentos, eu não quero fazer almoço, e a criança com fome fica irritada e briga com o irmão; a reação em cadeia se espalha e lá vou eu limpar os cacos de uma recusa que depois me custa, porque durante as minhas reflexões eu não deixo de ser o adulto da casa.

Respiro e tento me lembrar de que o caminho é longo. Vou pacientemente ensinando-os a se cuidarem: as tabelas de tarefas, fazer o arroz, não queimar o ovo, vigiar o leite fervendo para não transbordar, “vai escovar os dentes!”, “lava seu prato!” (e é melhor lavar logo que dá menos preguiça). De vez em quando, deixo o caos acontecer pra contar que, se não fazemos tudo isso, é assim que a casa fica.

Com (e sem) paciência, tento coexistir com o fato de que meu trabalho é explorado pelo capital, de que pari dois meninos atravessados por essas masculinidades, que eu não vou salvá-los — nem as mulheres a eles contemporâneas — de alguma toxicidade que certamente restará. Coexisto com o também-fato de que eles são gente pequena aprendendo, gente com quem gosto de conviver e que, se caminharmos para co-habitar juntos, cuidando uns dos outros, já está ótimo. Resisto a jogar em cima deles-pessoas a raiva que sinto da merda toda. Seguirei fazendo janta por um tempo ainda; mas, às vezes, será pipoca.


Faço o almoço. Repito mil vezes as tarefas por fazer que ele ainda não fez. Voltamos pela estradinha contando e ouvindo causos da nossa manhã longe uns dos outros. Tem tardes, como a de hoje, em que nos refrescamos depois de uma tarefa ao sol tipo plantar feijão. Em todas elas jantamos antes de escurecer. Tem noites em que eu não tenho um pingo de energia pra nada; em outras, surge uma vontade de ser pessoa acordada e sozinha na noite. Em todas elas ele lê e me dá boa noite quando percebe que já cochilou: “Mãe, acho que agora eu vou conseguir dormir”.

Fico pensando o quanto cuidar é um ato cheio de repetição, de de novos cheios de novidade igual e sempre. De novo abrimos a geladeira pra ver o que tem e o que precisa fazer a mais. A mesma comidinha de sempre com alguma novidade de vez em quando. Um pequeno novo, tipo gergelim no arroz ou essas profundas e trabalhosas novidades de agora: não quero mais conviver com esse homem todo dia, não quero mais esse trabalho e esse apartamento apertado.


Escrevo escutando os passarinhos-bebês gritarem de algum lugar do telhado. Ainda não achamos o ninho, mas eles estão lá, em alguma fresta. Essas palavras foram surgindo enquanto eu vivia coisas bonitas… procurava, encontrava e colhia as cambuquiras e as flores de abóbora. No baldinho eu ia colocando as physalis-do-mato quase abandonadas e as cebolinhas. Chegar na beira do fogão e ver o que será que vou fazer com essa pequena colheita, cortar os ramos de abobrinha delicadamente como dizem que meu avô fazia e que, de tanto falarem, mesmo sem eu nunca ter visto, sinto como se fizesse igual. Naquela hora, pouco importava o patriarcado, o trabalho reprodutivo, as mil outras coisas que eu como pessoa-mulher sei fazer. Pouco importava se meus gestos de mãe que faz almoço fresquinho pra esperar os meninos retornarem da escola ecoavam aquilo que é esperado de mim, o “normal”, o “mulher é feita pra isso mesmo”. Pouco importava porque, naquela hora, no corte das folhas, no empanar das flores, no arder das cebolas, eu era apenas gente cuidando de sobreviver com os seus. É que poluíram nosso ser-gente pra fazer deste trabalho lucro de outros e isso dói; mas não, eu me recuso a entregar todo esse precioso fazer nas mãos deles! E sim, reivindico meu breve plantar, meu caprichado ou improvisado cozinhar, reivindico o lavar dos pratos, o torcer das roupas, as goiabas que tirei os bichos e fiz suco depois do almoço, tipo mimo de mãe.

Autora: Ana Renó

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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