Tu gostas de café quente? Sim? Eu também gosto… Ou gostava, pois já faz certo tempo que não tomo. Será que ainda tem o mesmo gosto? Desce confortável, confortando…? Não sei mais. Agora é só água e pão velho. Talvez soe um pouco dramático, mas quem é mãe vai me entender.
Tu gostas de ir ao banheiro sem pressa? Ler uma revista (eu sei, já virou vintage) ou mexer no celular? Ou simplesmente fazer as necessidades sem pressa, como se não fosse um evento especial? Sei que gostas… Eu também gosto… Ou gostava, pois já faz um baita tempo que não rola.
Tu gostas de quê? Quem tu és? Ou quem tu eras antes de ser mãe? Eu era alegre, engraçada, da turma do “deixa disso”. Era calma, simpática, inteligente, criativa… Depois de ser mãe, não mais me perguntei quem eu sou. É que não dá tempo.
O tempo do café esfriar foi o tempo de um filho chamar porque estava com fome. O tempo de folga no banheiro deu lugar à pressa para atender o outro. Minha fome teve que esperar. Meu frio, meu sono. “Meu” é um pronome arcaico — não uso mais. E, se uso, é sob olhares condenatórios. “Como assim uma mãe que deseja?” Antes, era a criança que não tinha que querer. Agora, é a mãe.
A criança foi enfiada num pedestal na sociedade, mas não pelo valor dela em si e sim pelo papel que representa. Tornaram a criança uma forma de controle sobre o comportamento da mulher, para que continue obediente. Obediente ao patriarcado — esse silencioso sistema que coloca o homem como o líder: o que cria, o que faz, o que provê, o que pode, o que merece. O que não tem tempo a perder com louça, casa, filhos.
Com o avanço da mulher no mercado de trabalho e a conquista de direitos, como obrigá-la, de forma virtuosa, a continuar à margem do sistema? Como dificultar o acesso à liberdade e a maiores posições? Tu sabes, eu sei — carimbando nela um papel que, biologicamente, não pode ser transferido ao homem. É ela quem menstrua, ovula, pare, amamenta. Para adicionar a esse rol mais algumas funçõezinhas, não é difícil. Aproveita e já embala, veste, educa, transporta, etc.
Não precisei usar o pronome “eu” para participar da descrição acima. Nem preciso usar o “nós” para caber a tantas e tantas. Existe um tanto de mim e de nós em tudo aqui que não sinto mais tanto frio (se é que me permitem senti-lo). Sinto um certo calor ao compartilhar essa solidão e esse vazio da experiência materna — que dizem tão terna, mas que também é má. É má e terna. É cruel e alegre. Exaustiva e que orgulha. Individual e coletiva. Solitária e compartilhada.
O que dói não é ser má, além de terna. É ser impedida de dizê-lo. É proibido não ser absolutamente grata e feliz por ser mãe. É um verdadeiro pecado. “Te esconjuro! Ingrata, mal-amada, feminista, esquerdista, comunista, feia, cabeluda!” — ou qualquer outro termo que a criatura entenda por xingamento. “Bruxa! Queimem-na!”
É fácil transitar entre a maternidade individual e a coletiva — o que sinto que é esperado de mim, certamente é esperado de todas nós. Ser exemplo de retidão, doação e abnegação. Por mais analfabetas que sejamos, já ouvimos essas palavras grandes e facilmente compreendemos como expectativas julgadoras. Um misto de “espera-se que tu ajas assim e, em não agindo, tu és péssima”. Toda tua existência será posta à prova caso a tua maternidade não seja exemplar. E quem criou o molde que se espera da maternidade? Alguém que não menstrua, nem ovula, nem pare, nem amamenta, nem… Nem.
Ser mãe dói. Ser mãe sangra. Ser mãe é ser, primeiro, mãe. Mas, se não for exemplar no trabalho: “Viu? É mulher”. Se não estiver linda, arrumada, impecável, está errada. Ser mãe é ser serva. É termos nosso corpo, nossa alma e nosso sangue a serviço não só de uma criança, mas de todo um coletivo. Carregamos no ventre o filho e, nas costas, o sistema inteiro. E isso dói, cansa, esfria. Esfria o amor, a paciência e o café.
Imagino que, se tu és mãe, tu leste este desabafo de pé, ou correndo. O café, certamente, esfriou. Se puderes, passa um novinho, ou mesmo requenta. Lê com carinho, com tempo. Senta… Respira. É meu presente pra ti — foi um presente pra mim também.
Autora: Diana Wertheimer
Revisão: Laura Bonruck





