Minha Mainha me ensinou a cuidar. A vida me ensinou a continuar.

Durante muitos anos, pensei que cuidar fosse apenas estar por perto.
Era preparar uma comida, oferecer um banho, ajeitar uma cama, lembrar um horário de medicamento, acompanhar uma consulta, segurar uma mão. Só depois entendi que cuidar é muito mais profundo. É aprender a enxergar o outro mesmo quando ele já não consegue explicar o que sente. É perceber um silêncio diferente, uma expressão no rosto, um pequeno gesto que diz muito.
Foi convivendo com o Alzheimer da minha mãe que comecei a aprender isso.
Foram nove anos acompanhando o avanço da doença, tentando preservar sua dignidade e fazendo o possível para que ela continuasse sendo, acima de tudo, minha mãe — e não apenas uma pessoa com Alzheimer.
Eu não sabia, naquela época, que aquela experiência mudaria o rumo da minha vida.
Quando minha mãe partiu, há sete anos, ficou um vazio que nenhuma palavra conseguia preencher. Eu havia dedicado tanto tempo ao cuidado que, por um período, precisei reaprender quem eu era depois dele.
Mas algumas histórias não terminam quando as pessoas que amamos partem. Elas continuam dentro da gente, transformadas em ensinamentos, escolhas e novos caminhos.
Foi assim comigo.
Depois da perda de Mainha, tornei-me cuidadora profissional. Comecei cuidando de outras pessoas e descobri que, de alguma maneira, continuava exercitando aquilo que ela havia me ensinado: olhar para o ser humano antes de olhar para a doença ou para as limitações.
Passei a conviver diariamente com pessoas idosas, suas famílias, seus medos, suas histórias e suas pequenas conquistas. Aprendi que levantar sozinho da cadeira pode ser uma grande vitória. Que conseguir tomar um café sem ajuda pode representar liberdade. Que uma conversa, uma música, uma fotografia antiga ou uma atividade simples podem despertar lembranças e devolver um pouco de autonomia.
E então surgiu uma vontade ainda maior: compreender melhor tudo aquilo que eu já fazia intuitivamente.
Foi quando decidi estudar Terapia Ocupacional.
Aos 59 anos, continuo sendo estudante.
Não foi uma decisão simples. Voltar a estudar depois de tantos anos exigiu coragem, persistência e, principalmente, a disposição de ouvir muitas vezes aquela voz dizendo:
“Será que ainda dá tempo?”
Hoje eu sei que dá.
Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos que a vida me trouxe: não existe uma idade certa para recomeçar.
Enquanto algumas pessoas poderiam olhar para a minha idade e enxergar o que já passou, eu prefiro olhar para o que ainda posso construir.
Sou cuidadora de idosos, sou mãe, sou mulher, sou estudante. Tenho responsabilidades, cansaços, boletos, dias difíceis e também sonhos. Muitos sonhos.
Ainda estou aprendendo. Ainda tenho dúvidas. Ainda enfrento obstáculos. Mas existe uma coisa que o tempo não conseguiu tirar de mim: a vontade de seguir em frente.
Minha experiência como cuidadora me ensinou que envelhecer não deveria significar deixar de viver. E estudar Terapia Ocupacional me fez compreender ainda mais a importância de preservar a autonomia, a participação e a dignidade das pessoas, independentemente da idade ou das limitações que possam surgir.
Hoje, quando olho para trás, percebo que talvez eu não tenha escolhido esse caminho sozinha.
Minha mãe esteve presente nele de uma maneira que eu só consegui compreender depois.
Ela me ensinou a cuidar quando eu ainda não sabia que estava aprendendo.
A vida me ensinou a continuar quando eu pensei que não conseguiria.
E agora sou eu quem escolhe continuar escrevendo os próximos capítulos.
Talvez eu não tenha começado minha nova história quando era jovem.
Mas comecei quando estava pronta.
E isso, para mim, faz toda a diferença.
Porque descobri que recomeçar depois dos 50 não é voltar ao ponto de partida.
É começar de um lugar onde já carregamos experiência, cicatrizes, aprendizados e histórias.
É começar sabendo quem somos.
E, principalmente, sabendo que ainda podemos nos tornar muitas outras coisas.
Eu ainda estou me tornando.

Autoria: Aurilene Lopes Corrêa – Instagram: @aurilene.cognitiva

Revisão: Angélica Filha

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