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Eu romantizei a maternidade de todos os jeitos possíveis.

Como uma menina ingênua que sonha que o amor perfeito vai chegar.

Desejava tudo perfeito, o quartinho, que passei meses planejando, que ficou um tanto capenga – pra não falar desastre, pois o dinheiro acabou antes do final da reforma.

Os relacionamentos — desejava receber a todos em casa com bolinho e chá morno, mas foi o bebê nascer que virei uma loba-zumbi-descabelada-ciumenta. Como receberia as visitas se nem aguentava me ver no espelho? — cá entre nós eu só queria dormir.

Não dava conta das visitas, por não saber lidar com minhas próprias inseguranças e medos de ser julgada — ai se descobrirem que eu era normal, e não a quase-fada que desejava ser.

Os relacionamentos com a família azedaram. O relacionamento com o marido foi posto à prova.

Esperava que a maternidade completaria partes em mim. Acreditava que me sentiria plena e satisfeita, no entanto, me senti por muitas vezes pequena, insignificante, insegura, confusa e despedaçada em tantos vãos momentos. Não me senti suficiente.

Descobri duramente que eu não faria novos amigos tão cedo. E que seria bem difícil segurar os poucos que tenho. A solidão chegou a criar bolor. A falta de empatia fez ferida aberta de difícil cicatrização.

Hoje mais madura, muito menos romântica encaro que fui uma mãe que deu super errado. Dei errado em tudo no quesito “mãe-adorável-insuportavelmente-perfeita”.

E ali no fundo do poço que eu mesma cavei enterrei as expectativas, todas, uma a uma. Sob os escombros da “mãe que desejei ser” verti um mar de lágrimas, chorei por anos.

Naquele solo encharcado enterrei minhas armaduras, meu orgulho, meu medo de não pertencer, meu medo de ser pesada, medida, e portanto insuficiente…

Ok, levanto a bandeira: basta a perfeição!!!

Olhar minhas sombras, acolher minhas imperfeições me trouxe uma nova perspectiva sobre quem eu era de verdade. Revolver aquele solo fecundo me fez enxergar algo invisível ao olho nu, algo que a sociedade é incapaz de ver, ou não quer.

“ …uma mãe que tão necessitada de si mesma, tão perdida em seu próprios sentimentos, sonolenta e depressiva, tão expostas e julgada, abre-se e expande-se para outra vida desabrochar…”

E ela faz isso de corpo e alma, ainda que sua alma e seu corpo nem sempre estivessem presentes no mesmo lugar( talvez ele estivesse no planeta puerpério a divagar).

Sob aquele solo cheio de dor, repousei por dias e noite, a chuva me lavou, a terra acertou seu ph, um galho verde vivo brotou.

Nasceu uma “mãe-desencanada-mulher-decidida a ser feliz”, adoravelmente mais livre e vulnerável.


Autora: Rafaela Lobato. Sou mãe, artista plástica, escritora. 

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