Nunca tinha pisado lá. Quando passava em frente, enxergava os estudantes caminhando e me imaginava entre eles enquanto olhava pela janela do ônibus, até a universidade sumir. Meus braços doíam, e decidi cortar caminho por ali. Parei para recuperar o fôlego e coloquei meu bebê rechonchudo de dois anos sentadinho ao meu lado. Olhei para a frente, a placa dizia: Faculdade de Educação. No estágio que fiz no último ano do ensino médio, eu tinha colegas que se preparavam para entrar nessa universidade e outros que já estavam nela. Foi dali que também criei a vontade de um dia poder ser aluna desse lugar que, mesmo que eu passasse todos os dias pela frente a caminho do trabalho, era tão distante da minha realidade. Nessa fase da minha vida, eu chegava do trabalho meia hora antes de ir para a escola. Minha mãe, que chegava uns minutinhos antes de mim do trabalho dela, carinhosamente preparava um lanche ou até já aprontava a janta cedo para eu não ir para a escola sem me alimentar. Enquanto eu comia a sopa naquela noite fria, minha mãe fumava na porta. Esse era o momento que tínhamos para conversar rapidamente. Aproveitei para dividir com ela minha empolgação:
— Mãe, sabe que lá no trabalho muitos estão se preparando para entrar na universidade federal? Acho que eu gostaria também.
A expressão do rosto dela ficou séria. Olhando para o chão, ela disse:
— Minha filha, lá não é lugar para nós.
Olhei para cima, e o clarão da lâmpada branca me despertou do devaneio. Quando meus olhos se movem para acompanhar a explicação da professora, sinto uma fincada na cabeça. Enxaqueca. Me disseram que pode ser estresse e cansaço acumulado. Já estou no quinto semestre, passei da metade do curso, e isso moveu em mim algumas lembranças que eu me esforçava em afastar para poder acompanhar a aula.
Uma colega, que sempre tem algo a dizer, levantou a mão. Ela disse que fez estágio em uma escola estadual e que teve dificuldades porque a escola não tinha projetor e os banheiros não tinham assento no vaso. De súbito, lembrei que este ano minha filha do meio foi designada para a escola em que estudei no ensino médio. Entrei lá com ela e a escola estava igual à minha época. As paredes seguiam sem ver tinta há muito tempo, as cercas estavam enferrujadas, outras caídas porque já não tinham mais o que enferrujar, um aspecto de abandono.
A aula de hoje era uma conversa sobre nossas práticas de estágio nas escolas. Muitos estavam perplexos com as escolas públicas e levantavam a mão, um atrás do outro, para fazer seus comentários. Um colega dizia que, quando seu avô estudou naquela universidade, as coisas não eram assim. Lembrei do meu avô, que aprendeu a fazer contas matemáticas aos 5 anos enquanto trabalhava na plantação de fumo, ajudando a contabilizar a colheita.
Levantei a mão para falar. Outro colega começou seu comentário sem nem ter levantado a mão. Abaixei minha mão quando o meu celular piscou: era o grupo da escola dos meus filhos. Houve um tiroteio próximo à escola, e as crianças foram liberadas para irem para casa.
Levantei de súbito e saí da sala. Este semestre já precisei levar meu pequeno para a aula comigo porque a escola dele estava fechada por motivo de insegurança no bairro. Liguei para minha irmã, ela me acalmou, já tinha buscado a filha dela na escolinha próxima e buscou meus filhos também. Liguei para o meu filho mais velho e pedi para ele trancar as portas e janelas e não sair de casa. Mandei mensagem para o meu marido e pedi para não passar pela parte de maior tensão no bairro. Homem negro de moto é frequentemente visto pelos policiais como vagabundo, e, pelos vagabundos, como contra. Minhas mãos tremiam. Já estava no limite de faltas nessa disciplina. A violência e o medo pelos nossos não dão atestado para justificar ausência.
Voltei para a sala. Já tinha até esquecido a enxaqueca, falar não me importava mais, mas os colegas, que sempre tinham algo a dizer, seguiam falando.
Minha mãe, que veio do interior aos 7 anos para morar com uma família na cidade, entre tragadas no cigarro e com o olhar fixo no chão, cansada do trabalho e sem encarar meu rosto, dizia as palavras que remoo ainda hoje, vinte anos depois: “Aquele não é lugar para nós”. Essa história terminaria bonita se eu pudesse dizer que o tempo passou e que hoje, finalmente, a universidade federal é o nosso lugar também. Recentemente, os colegas de escola do meu filho mais velho, que se formam no ensino médio este ano, me perguntaram quanto eu pagava de mensalidade na universidade federal. Enquanto as escolas privadas treinam seus alunos desde a educação infantil para ocupar as vagas públicas, as escolas públicas nem sequer informam aos seus formandos que a universidade federal é gratuita e que existem auxílios de permanência para estudantes de baixa renda. A universidade segue não sendo um lugar para os nossos.
Hoje não está rendendo mesmo, não estou conseguindo prestar atenção na aula. Preciso ver meus filhos, estou apreensiva. Lembrei que, semanas atrás, essa mesma professora precisou trazer o filho dela para a sala. Não sei qual contratempo ela teve, mas trouxe. Uma mãe entende a outra. No intervalo, vou conversar com ela para sair mais cedo da aula.
Ela escreveu no quadro: “O que nós, como docentes, podemos fazer para diminuir a desigualdade de acesso na educação?”
As mãos que historicamente são o perfil de aluno que ocupa as universidades federais se ergueram com velocidade. Seus discursos eram bonitos. O intervalo chegou.
— Professora, com licença, eu estou precisando sair mais cedo hoje para ver meus filhos, tudo bem?
— Claro! Eu coloco meia presença para ti.
Ônibus lotado. Uma hora e meia de viagem, quase todo o trajeto em pé. A cabeça lateja, a mente está exausta. Dobro a esquina de casa, o coração bate mais rápido. Entro, abraço meus filhos; era disso que eu precisava para me fortalecer e voltar para a universidade amanhã.
Autora: Luciana Freitas Klain
Revisora: Samantha Viriato





