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Quando eu era criança eu vivia em um lugar onde as execuções eram normais, tanto quanto comprar pão. A sensação que eu tenho era que ali valia um outro código. Não tô falando de um assaltante, eu tô falando de um sistema tão natural que tornava o absurdo em realidade. As pessoas falavam do marido de fulana que apareceu esquartejado, durante o café da manhã, sem pudores, classificação livre.

Minha família foi metralhada, meu pai morreu, o horror era real…
Saímos de lá pra sempre;
Depois disso, nunca coloquei os pés lá de novo.

Eu saí de lá e ingenuamente prendi naquele tempo/espaço o absurdo. Na minha cabeça aquele espaço e aquele tempo encapsulavam o faroeste, o sem lei, o jeito de viver que só quem sabe sabe.
Do lado de cá da linha, eu venho há muito tempo fazendo força pra não enxergar,
Mas hoje me senti na mira de novo.

Hoje metralharam os meus sonhos, as minhas esperanças
Hoje metralharam de novo um dos meus
Nossa carne de novo
Nossa carne sempre
Hoje o absurdo invadiu a realidade
De novo, eu não tô falando de um assalto
De novo, é todo um sistema.
Eu sei disso,
Você sabe disso.
E o algoz tem um nome.
Eu só consigo sentir terror!

Meu mundo partiu no meio e amanhã, quando eu colocar os pés pra fora de casa vai ser voltando para aquele lugar da infância.
Vai ser com a certeza de viver no absurdo,
Vai ser sabendo que mais um dos meus morreu, defendendo o justo;
E que os deuses que cuidam permitam algum alento;
E os deuses de luta permitam que isso não tenha sido em vão.

Autora:

Meu nome é Thayara, tenho 28 anos e moro na zona norte do Rio de Janeiro. Sou formada em História, tenho mestrado em Educação Antirracista, e sigo, agora, na mesma área no doutorado, todos pela UFRJ. Sou uma mãe, doutoranda, militante… Tentando evitar o caos, girando um prato de cada vez…às vezes dois!

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