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Quando coloquei a minha filha, ainda bebê, na creche, todos me perguntavam se a adaptação à nova rotina estava difícil; davam-me conselhos e contavam as suas experiências pessoais. 

Esse é um assunto em pauta nas rodas de conversas, no mundo virtual, nas revistas e até no imaginário das mulheres grávidas. 

Mas, o oposto aconteceu quando a minha filha cresceu e chegou ao momento de uma nova adaptação: andar sozinha nas ruas. 

O silêncio em torno do assunto tornou essa, uma decisão solitária e, consequentemente, mais pesada. (Os assuntos relacionados à maternidade de filhos mais crescidos costumam ser assim, tabus).

O fato é que, os desafios de ser uma mãe de adolescente, ou pré-adolescente, não é conversado fora de casa. Um exemplo disso é o de saber qual é o momento certo; e as regras do direito de ir e vir desacompanhada, que se aplicam a uma filha nesta fase. 

Talvez por insegurança, as mães, que possuem tão poucas certezas sobre as suas escolhas, preferem não divulgá-las abertamente. 

Será que a minha filha está realmente preparada para andar sozinha nas ruas e usar o transporte público? Será que eu, como mãe, estou preparada para aceitar os riscos dessa nova rotina? Ou, ao contrário, será que a estou superprotegendo, a ponto de não prepará-la para a vida real?

É pouco provável que eu seja a única mãe a se questionar sobre esse assunto. Claro que, cada caso tem as suas especificidades, como a maturidade da ex-criança (que nem sempre está diretamente relacionada com a idade), o nível da violência nos lugares frequentados, e, até mesmo, a disponibilidade de um adulto para acompanhar a ida e volta do colégio, bem como todos os demais trajetos da adolescente. 

Ainda assim, entendo que o debate sobre o assunto poderia trazer conforto a muitas mães que, como eu, precisam se preparar para tomar decisões a esse respeito.

A consequência é que agora, quando escuto pessoas perguntando sobre a adaptação de um bebê na creche, o que me vem à cabeça é que este é só o primeiríssimo passo em direção à independência dos filhos. E por ser o primeiro, acaba sendo bem mais fácil do que os passos seguintes, já que na creche supõe-se que o bebê estará bem cuidado e em segurança. 

Difícil mesmo é dar um cartão de transporte público para uma adolescente, e não perder a tranquilidade, até ter a certeza de que a pequena chegou a casa. Eu, pelo menos, enquanto escrevo esse texto, espero a minha filha enviar uma mensagem tranquilizadora dizendo: “Mãe, eu cheguei bem!”.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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