Criar filhos não é nada fácil. Criar filhos do jeito que a gente quer ou planeja é algo ainda maior do que difícil. Faz quase três anos que tentamos livrar Lisbela das telas – conseguimos 100% de efetividade em relação aos smartphones e tablets. Isso não nos torna pais exemplares ou excepcionais, e essa crônica está longe de ser sobre isso…
Esses dias, chegamos para almoçar em um restaurante de costume e já tínhamos esgotado quase todos os artifícios para controlar a ansiedade da espera pela refeição. O espaço estava mais cheio do que o habitual e, as crianças da geração celular, estavam concentradas nas telas garantindo o mínimo de sossego para os pais – às vezes, a gente avalia que esse caminho tem as suas vantagens, em relação aos adultos.
Lisbela limpou a mesa com álcool em gel, criou personagens com os palitos de dente, fez caminha de guardanapo, brincou de pararaparates e quando eu achei que não era mais possível exigir da minha criatividade, inventamos brincadeira nova com sal. Letrinhas de sal, foi como batizamos a nossa invenção. E funcionou. Viva! “Veja a perfeição dessa letrinha T de tartaruga!”.
Eu não me recordo da data de um encontro inusitado que tivemos com uma conhecida que engravidou três vezes consecutivas. A bebê mais velha tem a idade de Lisbela. Imagina só o sufoco… Ela nos relatou a dificuldade diária e comentou algo do tipo “eu não consigo ser a mãe que o Instagram diz que devemos ser…” – Ressalte-se que o Instagram não tem dado aulas muito boas sobre maternidade. “Muitas vezes, a ajuda que eu tenho é das telas”. Louvável! Aceitamos a confissão dela e, prontamente, concordamos. É o melhor de uma mãe em um dia difícil.
É preciso muito cuidado para não pregar perfeição. Eu erro na oferta de açúcar, a outra mãe confessa que já perdeu a cabeça, mais uma não consegue controlar a rigidez, tem a que não tem mantido a casa em ordem, a que passa a semana fora trabalhando. Histórias que se cruzam em desabafos que nos levam para algo que vem dentro do combo mãe-filha: a culpa.
Enquanto os especialistas criticam o uso de telas, o garçom me olha com cara de “você vai limpar essa bagunça?” E, no final, a gente não agrada todo mundo.
_
Por Mickaelly Moreira – @cronicas_demae