Mulheres-mães protagonistas da própria história

De onde nasce a culpa materna?  

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A culpa, segundo o dicionário, possui alguns possíveis significados. Juridicamente, a culpa é o “ato voluntário que evidencia imprudência, imperícia ou negligência e provoca danos ou dolo a outrem”. Já no sentido psicológico, a culpa é a “consciência penosa por falhar no cumprimento de uma norma social ou moral”. Quando entra em cena a maternidade, parece ser mais evidente que, quando se fala em culpa, estamos falando da culpa psicológica, aquela na qual as mulheres mães sentem quando percebem que não estão cumprindo sua função como se espera socialmente.  

Se a culpa materna é uma culpa psicológica resultado de uma falta para com as normas sociais e valores morais atuais, podemos, então, questionar por que a culpa materna é tomada quase como uma verdade para uma boa parte das mães?  

É verdade que a função materna carrega em si uma grande responsabilidade que é o cuidado de uma nova vida. Isso quer dizer que a falha de uma mulher mãe tem consequências na vida de outra pessoa, por isso não é uma falha trivial que passa desapercebida 
Porém, se pararmos para pensar, existem muitas outras funções sociais que demandam o mesmo nível de responsabilidade de uma mãe, por exemplo, na medicina, na política, na engenharia, na condução de transportes (avião, navio), etc. Nesses casos, trata-se de funções que lidam com vidas, com riscos, com consequências de suas ações, e, apesar do estresse que está geralmente envolvido nestas funções, não se escuta com a mesma frequência que essas pessoas se sentem constantemente culpadas como se falhassem o tempo todo. O que há de diferente com as mulheres mães?  

Vou lançar mão aqui de alguns trechos do livro de uma filósofa francesa, a Elisabeth Badinter, no seu livro “Um amor conquistado: mito do amor materno”, onde ela diz que, na sociedade atual, a verdade sobre a maternidade repousa na ideia de um amor muito forte pelo filho, sublime e incondicional. Este amor é tido como instintivo, natural, algo que” seja parte da natureza da mulher, seja qual for o tempo ou o meio que a cercam”. O amor materno seria então tão natural quanto o nosso espanto ao deparar-nos com uma mãe que não se apresenta dessa forma, pois “vemos sempre como uma aberração, ou um escândalo, a mãe que não ama seu filho”. Mas isso nem sempre foi assim. 

Apenas a partir do século XVIII, muitas publicações escritas por médicos, filósofos e figuras importantes passaram a recomendar às mães que cuidassem pessoalmente dos filhos. Badinter nos conta que essas publicações diziam às mulheres que elas tinham a obrigação de serem mães antes de tudo, o que resultou no mito que permanece vivo entre nós: o do instinto materno, ou do amor espontâneo de toda mãe pelo filho. O amor materno passou a ser encarado como um valor natural e social, que beneficia toda a sociedade e a espécie humana, e nada além de devoção é esperado da mulher em relação aos seus filhos. Passamos a acreditar, desde então, que não haveria ocupação mais agradável para a mulher que a maternidade, na qual ela encontraria prazer e realização na dedicação ao filho, quando as privações seriam transformadas em pura alegria.  

Como consequência da consolidação destes valores que se tornaram dominantes, as mulheres passaram a ter de cumprir o papel de mãe com base num modelo rígido e específico, ou seja, numa dada normatividade. O aspecto moral desta normatividade é o sentimento de culpa que aparece nas mulheres que estão fora da norma, sendo, na realidade, a grande maioria delas. Isso porque a normatividade em relação à maternidade foi definida segundo um pressuposto de natureza feminina, uma idealização, uma mulher que não existe — e nunca existiu de fato — e cuja implementação tem um alto custo.  

As interações sociais podem ou não reforçar esse sentimento de culpa em relação à norma. Se a mulher estiver num meio no qual ela é cobrada de modo absoluto por esta função, sendo julgada e vigiada constantemente pelos olhares dos outros, num verdadeiro mecanismo de controle social, a culpa aparecerá como uma evidência da sua inadequação. Se ela não desempenhar a contento o papel de mãe, ela poderá ser condenada, sofrerá as ameaças e consequências de não ter bem-criado seus filhos. É difícil para as mulheres não sentirem a pressão desse mecanismo social e, consequentemente, não sentirem a culpa por nunca atingirem este ideal de devoção maternal idealizada.  

Por isso, frente ao que foi exposto, é preciso refletir sobre a maternidade, liberar as mulheres mães para uma experiência mais ampla de uma maternidade que seja a possível e que tenha por base a singularidade da vivência e de suas circunstâncias, sem identificações rígidas e fixas, muitas vezes pré-concebidas e descoladas da realidade vivida. É apenas desse modo que a maternidade pode ser encarada como de fato é: uma experiência em construção. 

Autora: Tamara Boccatelli – @psi.tamara_boccatelli 
Revisado por: Gisele Sertão – @afagodemaeoficial 

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