Grafias instáveis do ser

A collection of old black-and-white photographs stored in a vintage wooden box, evoking nostalgia.

Chego em casa e vejo álbuns fotográficos espalhados pelo sofá, chão e mesa. Muitas fotos retiradas das páginas, marcadas por digitais infantis e com sinais de manuseio recente. Observo que algumas trazem no verso uma tentativa de escrita. Minha filha mais nova tem cinco anos e está se aventurando em hipóteses alfabéticas de grafia, rumo à alfabetização. Tenta exaustivamente, entre brincadeiras que envolvem a confecção de cartas, bilhetes e convites, transformar sons em grafemas. Muitas vezes ao dia nos grita, entre folguedos infantis, para soletrarmos alguma palavra que se apresentou como uma escrita sofrível para ela. 

Observo esse processo nos versos de algumas fotos. Ela tentou registrar o nome de familiares e amiguinhos presentes nos retratos escolhidos. Como se estivesse transformando as imagens em pequenos presentes a serem enviados àquelas pessoas. Reconheci, nas letras desconexas, um nome aqui, outro acolá, a palavra “amor” reiterada em muitos cenários, numa tentativa visível de discorrer sobre a amizade de maneira escrita. De certa forma, ela já entendeu a necessidade de deixar rastros, de perpetuar a memória e exprimir os próprios sentimentos.

Tento recolocar as fotos no álbum e, no intuito de preservar a cronologia, procuro em vão manter a ordem original com que organizei aquelas memórias. Não consigo. As viagens, aniversários e comemorações familiares se misturam no amontoado de imagens espalhadas pela minha filha caçula.

As fotografias têm uma importância muito grande para mim. Cresci numa época na qual essa representação imagética era privilégio de alguns grupos. Câmeras, filmes e revelações com valores altos, entre outros aspectos, tornavam o relato por meio da fotografia restrito às famílias afortunadas. Por isso, tenho pouquíssimas imagens documentais de minha infância: uma foto com menos de dois anos, junto a outros primos; depois algumas com cinco ou sete anos. Hoje, quando encontro uma fotografia na casa de algum tio, é como se estivesse encontrado um tesouro, uma passagem direta à minha infância.

Quando a maternidade chegou, obviamente, quis corrigir essa lacuna. Minhas filhas teriam muitos registros! Assim, vê-las crescendo com essa documentação que abrange não só fotos, mas também pequenos objetos, lembranças e cadernos de anotações sobre o desenvolvimento delas, me traz um prazer indescritível. Daí veio a ideia de não deixar essas recordações guardadas, mas sim expostas ao alcance dessas mãos infantis, para que pudessem, num processo metalinguístico, construir novas memórias ao mesmo tempo que revisitam as antigas. Mas agora, ao tentar reorganizar as fotos amassadas, rasuradas e destituídas dos seus significados originais, começo a achar que foi uma ideia ruim colocar esses álbuns de maneira tão acessível.

Vira e mexe noto o sumiço de algumas dessas fotos. Outro dia encontrei uma colada na parte interna da porta do guarda-roupa da minha filha mais velha, agora adolescente. Era uma foto dela com um pouco mais de um ano, deslumbrada com o efeito multicor de bolinhas de sabão. É uma imagem com pouca nitidez, mas com muita espontaneidade. Não sei exatamente por que ela escolheu aquela imagem entre tantas.

Percebo nesse instante que, embora eu tenha feito a curadoria inicial desses momentos, tentando traçar a linha de fatos memoráveis da nossa vida, elas também já fazem uma escrita sobre a minha, como num palimpsesto. Ou melhor, evocando o trabalho ancestral de tantas mulheres, penso nesse processo de narrar as próprias vivências como um bordado. Eu vou tentando fazer os traços, escolher a quantidade de meadas e cores das linhas, mas elas também já vão empunhando a agulha, seguindo ou sobrepondo meu movimento, mudando os pontos num processo de apropriação, seguindo ramagens e flores não desenhadas, inventando formas que parecem não combinar com o projeto inicial.  

A maternidade já mudou meu traço, minha letra, minha lente. E sei que esse processo é contínuo. Tento, em meio a esses escritos sobre o cotidiano e outros tantos signos de registro, acalentar aquela menina que fui: sem imagens, livros ou cadernos. É ela que teima em relatar, em mostrar sua voz, em colocar cores brilhantes no próprio bordado. Na mulher que sou hoje, tateio uma linguagem, um modo de estar no mundo de maneira a reverenciar tantas mulheres da minha família que vieram antes e foram silenciadas, principalmente pelos muros que as obrigações cotidianas impostas às mulheres erguiam e erguem, de maneira a confinar nosso tempo de criação aos limites do lar.

São muitas tentativas para tentar encontrar essa semântica mais afetuosa com minhas filhas, mais desgarrada das cobranças práticas do dia a dia. Por vezes, os gritos que eu tanto escutava na minha infância, pois eram comuns nos lares daquele tempo, muitas vezes marcados por violência física, psicológica ou negligência, encontram os ouvidos das minhas filhas. Monstruosamente esses sons são ecoados pela minha própria garganta. Logo eu, que escrevo a vida tentando romper essas brutalidades.

Fico arrasada nesses momentos, choro encolhida na minha pequenez. Nessas situações, converso com elas e explico minhas dificuldades em alterar o que aprendi. Explico que a voz estridente se misturava com o amor na minha infância e que o grito também era paradoxalmente sinônimo de casa. Falo da minha tentativa de rascunhar outros comportamentos e realidades.

Geralmente elas me acolhem também, mas não sei exatamente como essas cenas vão se costurar nas escrevivências delas. Como dói saber que eu poderei, apesar de tanto amor, também ser responsável por lembranças doídas que não estarão visíveis nos sorrisos dos álbuns de família, mas entalhadas no coração.

As fotos embaralhadas pelo chão são meu lembrete de que o risco do bordado é alterado diversas vezes. Das mãos delas já surge uma escrita que mistura os fatos e muda as formas de lembrar e de narrar. Nunca controlamos como os acontecimentos aparecerão na memória, nunca controlamos o fio que borda a vida, mas, ainda assim, é preciso se mover na esperança de escrever outras realidades, espaços e sentidos. Esse movimento não será captado pelas lentes das câmeras, mas é necessário que esteja desenhado no corpo e na alma por meio dos mínimos gestos.

Autora: Daiane Andrade – @daiane.silva.andrade

Revisora: Yhasmin Viriato

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal