Minha travessia até chegar à maternidade teve início quando, ao desejar meu filho, me deparei com um caminho inesperado: um corpo que insistia em engravidar na trompa. Um corpo considerado infértil se apropriou de mim, e a necessidade de recorrer à ciência desnudou a minha alma. Senti uma dor profunda. Tal sofrimento me aproximou, mais tarde, de outros que viviam a mesma experiência.
Foi essa vivência que me permitiu reconhecer, com delicadeza, o sofrimento de quem insiste em transformar esperança em realidade.
Durante o tratamento, enfrentei desafios que iam muito além dos procedimentos médicos. Cada decisão exigia coragem; cada etapa trazia novos sentimentos. Os hormônios alteravam meu corpo enquanto eu aprendia que não poderia ter o controle de quase nada. Havia um desencontro permanente entre o tempo do desejo e o tempo biológico do corpo. O tempo é rei e dizia que não poderia demorar muito para uma gestação.
A infertilidade deixou de ser apenas um diagnóstico. Aos poucos, passou a ocupar muitos espaços da minha existência. Se a maternidade sempre me parecera um dom, sentia-me privada não apenas dela, mas também da minha própria potência criativa e afetiva. Era como se meu corpo precisasse ser consertado antes que eu pudesse voltar a habitar plenamente quem eu era.
Segui protocolos, suportei exames e percorri um caminho no qual a ciência e a esperança caminham juntas. Ao final, tive o privilégio de dar à luz ao meu filho, Lipe. Mais do que isso, encontrei a possibilidade de integrar tal experiência à minha história.
A psicanálise teve papel fundamental nesse processo. Foi na escuta do meu inconsciente que aprendi a sustentar o desejo de ser mãe e a atravessar as incertezas sem perder de vista aquilo que realmente importava. Descobri também que a persistência não era apenas minha, mas também do meu marido.
Após o fim do tratamento, escolhi dedicar minha vida profissional à Psicologia da Reprodução Humana. A experiência que antes me atravessava como paciente passou a dialogar com a pesquisa no mestrado e, posteriormente, no doutorado e na clínica. Minha história tornou-se uma ponte para compreender a de tantas outras pessoas. Embora cada percurso seja singular, fios invisíveis unem essas narrativas: o desejo de um filho, o encontro com a impossibilidade, a esperança renovada e a coragem necessária para continuar.
No encontro entre minha história e a dos outros, compreendi que a infertilidade nunca diz respeito apenas à ausência de uma gravidez. Ela convoca perdas silenciosas, sonhos interrompidos e lutos que raramente encontram espaço para serem nomeados.
Entre as histórias que escuto em meu consultório e a minha, reconheço um tecido comum. Algumas pessoas conseguiram acolher seus filhos nos braços; outras permanecem na espera. Há quem tenha encontrado novos sentidos para a vida e quem tenha descoberto filhos simbólicos: ideias, trabalhos, causas e afetos, também nascidos do desejo.
Cada narrativa é única, mas todas carregam a marca de um amor que antecede a existência do próprio filho. É justamente essa intensidade que torna tão profunda a dor da impossibilidade de conceber naturalmente. Trata-se de um luto pouco reconhecido, sem corpo, mas profundamente real, que precisa ser acolhido e integrado à vida.
Foi dessa travessia que nasceu meu compromisso com a escrita. Ela surgiu do encontro entre minha experiência, o desejo de ter um filho, o exercício cotidiano da escuta clínica e a convicção de que as palavras podem oferecer um novo destino ao sofrimento. Escrever não elimina a dor, mas rompe o silêncio. Quando uma experiência encontra as palavras, ela deixa de ser apenas ferida e transforma-se em memória, elaboração e possibilidade de encontro.
Ao longo dos anos, compreendi que o universo da infertilidade reúne muito mais do que procedimentos médicos. Nele convivem repetidas perdas, gestações interrompidas, exames negativos, a ansiedade diante de cada ciclo, dúvidas sobre as escolhas feitas, expectativas familiares e a solidão produzida por um linguajar técnico que, muitas vezes, distancia justamente quem mais precisa compreender o que está vivendo.
Nesse percurso, encontrei pessoas que precisaram renunciar ao vínculo genético para acolher a parentalidade por outros caminhos. Material genético de outrem e a solidariedade de outra barriga provaram que um filho nasce para além da biologia. As biotecnologias expandiram as formas de gerar vida e também desafiaram antigas concepções de parentalidade.
A Organização Mundial da Saúde estima que 15 milhões de pessoas vivenciarão a infertilidade em algum momento de suas vidas. Ainda assim, essa experiência permanece cercada de silêncio. Muitos casais acreditam estarem sozinhos diante da própria dor, enquanto fantasiam que as gestações acontecem com facilidade.
No consultório, escuto frequentemente mulheres que interpretam a infertilidade como castigo ou fracasso pessoal. Essas palavras revelam o sofrimento de quem teve sua subjetividade profundamente atravessada pela impossibilidade de gerar um filho. O trabalho clínico consiste justamente em abrir espaço para que novos sentidos possam surgir, permitindo que a vida volte a florescer onde antes parecia existir apenas ausência.
Optar por um tratamento de reprodução assistida exige muito mais do que recursos financeiros ou disponibilidade física. Exige coragem para enfrentar exames invasivos, sucessivas tentativas e frustrações. Os avanços científicos são cada vez mais notáveis, mas o imponderável da vida permanece como companheiro inevitável dessa jornada. Não há garantias de êxito no tratamento.
Hoje compreendo que minha história foi transformada pelo desejo de que meu filho estivesse aqui, mas também pela possibilidade de atribuir sentido a essa experiência. Foi ela que me conduziu à escuta clínica, à pesquisa e à escrita. Cada relato que acolho reafirma que a infertilidade pode produzir sofrimento profundo, mas também revela a extraordinária capacidade humana de reinventar caminhos quando a vida exige novas formas de amar.
Talvez, ao ler estas páginas, alguém reconheça parte de sua própria história. Nas palavras de Simone de Beauvoir, “toda dor dilacera, mas, partilhada, deixa de ser um exílio”. Se estas palavras puderem transformar exílio e solidão em encontro, renovando a esperança de quem atravessa esse caminho, terão cumprido seu propósito maior: lembrar que, mesmo nas travessias mais difíceis, ninguém precisa caminhar sozinho.
Autora: Cynthia Machado – @psicocynthiamachado
Revisora: Yhasmin Viriato





