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“Mamãe, vem, vai começar! Vem logo, mamãe, as meninas já vão jogar”

Quando eu tinha, mais ou menos, uns doze anos de idade, comecei a me interessar por futebol. Por uma tradição familiar adotei como time do coração o Corinthians, equipe escolhida pelo meu avô paterno, um imigrante espanhol, pra chamar de sua quando veio viver no Brasil.

Eu nunca associei futebol a gênero, mas (curiosamente) era a única menina na roda de conversa no intervalo da escola quando o assunto era o esporte. Eu amava futebol, com todas as forças que os adolescentes costumam amar as coisas. Eu sabia tudo sobre futebol: as regras, as equipes e os escudos, os nomes dos jogadores do meu time, os campeonatos disputados pelo Corinthians e seus títulos, os dias de jogos. Futebol era pra mim como o ar, essencial. Eu fazia a tabelinha e acompanhava a pontuação de cada competição disputada pelo meu time. Aliás, perder um jogo do Corinthians, fosse de dia de semana ou final de semana, era algo inimaginável pra mim.

Eu amava futebol. Como todos os exageros que os adolescentes costumam carregar em si. Como eu amava!

No intervalo da escola, lembro de me reunir com os moleques da sala pra discutir a rodada da semana. Os debates eram sempre de igual pra igual, e, apesar de ser a única corinthiana da roda, eu me saía muito bem quando o assunto era o Timão. Ah, como eu amava futebol!

Nos outros espaços de sociabilização que a adolescência me trouxe, fosse no clube, na roda de amigos ou qualquer outro lugar, sempre que o assunto era esse, eu estava no meio. Eu era a única menina.

Cheguei a escutar muitas vezes que, pra uma garota, eu até que sabia bastante sobre o esporte. Também ouvi que futebol não era coisa de mulher e que eu era uma “Maria Moleque” porque me interessava muito mais por assuntos tidos como masculinos do que as conversas que as pessoas acreditavam serem de meninas.

Apesar de amar futebol, eu nunca tive vontade de jogar. O esporte que eu idolatrava era feito por homens e para homens. Na minha adolescência, times femininos sequer existiam, e se existiam, essa informação nunca chegou em mim. Eu até tentei jogar uma ou outra vez, mas na Educação Física da escola os professores torciam a cara quando a gente pedia pra bater uma bolinha. Sempre tinha comentário e cara feia, então, pra evitar o desgaste, eu me contentava com o vôlei na escola e o futebol na TV.

Os anos passaram, a vida adulta chegou e eu continuei apaixonada. Nesses quase trinta e cinco anos, já chorei muito pelo meu time, arrumei confusão, xinguei e até quebrei sofá comemorando título (mas isso é assunto pra outra história… rs). A maternidade me fez mais sã, mas não menos apaixonada. Nesses quase trinta e cinco, percebi como a vida é injusta quando a questão são os gêneros. Aprendi sobre patriarcado, machismo e vivi na pele as exclusões que cabem apenas a nós, mulheres. Apesar disso tudo, eu só descobri e assimilei que futebol também é pra gente quando me tornei uma adulta, que lugar de mulher é onde ela quiser, seja na roda de discussão ou dentro de campo.

Pra minha felicidade (ou sorte, alinhamento dos planetas, aprendizados que a maternidade traz pra vida), meu filho é um pequeno apaixonado por futebol. Ele não tem um time definido, mas sabe as regras, acompanha os jogos e reconhece grande parte das equipes apenas pelo distintivo. Pedro ama futebol, com todas as forças e exageros que a infância imaginativa carrega.

Desde cedo, Pedro aprendeu (e eu também) que futebol não tem gênero. Ele assiste a jogos de meninos e meninas com a mesma intensidade e empolgação, seja na TV ou no estádio. Pedro narra, vibra e me chama pra ver os jogos. Coleciona figurinhas e pula de alegria quando a gente pega um pacote com alguma brilhante e tem vivido a expectativa de tirar a Marta assim como esperou pela figurinha do Messi.

Mais cedo, quando ele me chamou pra assistirmos ao jogo do Brasil, um misto de emoções tomou conta de mim. Meu menino, meu pequeno apaixonado por futebol, assistindo a uma Copa do Mundo jogada por mulheres. Que sonho!

Quando o Brasil entrou em campo, não consegui conter as lágrimas. Chorei pela emoção de ver mulheres tendo destaque num esporte dominado pelos homens, chorei por perceber que meu menino, ainda que homem, sabe desde pequeno que futebol é coisa de mulher.

Que qualquer coisa é coisa de mulher.

Autora:

Cauana Donat, formada em História, mãe do Pedro e feminista, além de corinthiana roxa. 

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