Do lado de fora

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Do lado de fora da igreja, ouvi o padre repetir essas palavras de Jesus enquanto mal conseguia ver o altar. Com minha bebê nos braços, minha maior preocupação era respirar com cuidado para não acordá-la.

Nesse, e em tantos outros cenários, tenho aprendido a encontrar Deus em cada renúncia e a entender que maternar é, sobretudo, estar menos onde se deseja e mais encontrar sentido no lugar para onde fomos levadas.

Do lado de fora do berço, eu velo o sono daquele serzinho, observo sua respiração e sinto cada célula do meu corpo ser tomada por um cansaço que, nem no seu dia mais extremo, me permite dormir sem antes contemplá-la.

E, quando olho para mim mesma, parece que também me vejo de fora. Aquela história dos comerciais de Dia das Mães, “quem eu era antes de você?”, é tão real quanto a privação de sono. Mudaram os dias, meu corte de cabelo, todas as minhas certezas. Mudaram os objetivos, a lista de prioridades, a forma como me enxergo e, mais ainda, como enxergo os outros.

Hoje, eu fico mais do lado de fora também das rodas de amigos, festas, viagens, encontros aleatórios no meio da semana. Mas, ironicamente, para alguém que sempre fez questão de ser incluída em tudo, estar do lado de fora nem é tão ruim assim. Porque, hoje, estar dentro só faz sentido se for na vida que estamos construindo.

Antes de ser mãe, eu me sentia totalmente do lado de dentro, no controle da minha vida. Das minhas vontades, da minha rotina, dos meus horários. Mas ser mãe é se casar com o imprevisível, nunca viver um dia igual ao outro e ser obrigada a aceitar uma total falta de controle.

É aceitar que os planos podem continuar existindo, mas agora precisam dividir espaço com uma pessoinha que não sabe nada sobre eles e, ainda assim, tem o poder de mudá-los completamente.

O treino de uma hora agora requer uma logística de guerra: uma mala com tudo o que se pode precisar, ordenha, uma (às vezes duas) mamadas antes de sair. E, mesmo estando com a roupa e o tênis, eu saio sabendo que ela pode ter uma cólica forte e precisar do meu colo muito mais do que eu preciso exercitar meu quadríceps numa quarta-feira qualquer.

Talvez essa seja a maior de todas as renúncias: não apenas abrir mão de fazer o que se quer, mas abrir mão da certeza de que será possível fazer até o que muito se planejou.

Apesar deste ser um papo de terapia toda semana, eu continuo tendo a certeza absoluta de que essa experiência é a maior da minha vida e vai me fazer um ser humano melhor do que qualquer outra experiência poderia proporcionar.

A doação infinita sem exigir nada em troca, o coração sempre disponível. Se é disso que minha filha precisa, é isso que eu vou ser.

Porque se é do lado de fora que Amelie está, eu nunca mais quero estar do lado de dentro.

Escrito por: Francisca Pires – Instagram: @cicys_

Revisão: Angélica Filha

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