Sou uma mulher de meia idade começando a sentir os sintomas da pré-menopausa e com um hipotireoidismo que insiste em se manifestar a cada dia, esfregando na minha cara que o corpo começa a ratear e que a memória está indo para o espaço. Por isso escrevo, para que minha passagem por aqui não seja apagada. Por enquanto, ainda tenho a chance de falar por mim.
Minha vida sempre foi marcada por muitos abusos, e na infância não foi diferente. As madrugadas não serviam apenas para o meu sono, mas também para o deleite de um homem sobre o corpo de uma menina de 6 anos. Meu dito genitor, vulgo papai.
Entre idas e vindas, faço terapia há alguns anos. Em uma sessão com um antigo terapeuta (homem branco e de meia idade), algo diferente aconteceu. Rolou uma espécie de regressão, mas eu não fui avisada previamente sobre a técnica. Ele queria saber se esses abusos eram apenas fruto da minha imaginação ou se foram reais. No meio do processo, senti todos os toques, vi algumas imagens, veio tudo muito vivo na minha mente. O profissional rapidamente teve a sua resposta. Levantei apavorada. Ele perguntou:
— E aí, está se sentindo melhor?
Respondi:
— Sim, imagina! Foi uma delícia!! Entrarei no primeiro bar, vou encher a cara para esquecer toda essa merda.
Nossas dores são motivo de indiferença e falta de sensibilidade para muitas pessoas que se acham na posição de juízes. Esse não foi o único caso.
A adolescência também foi um saco. Como única mulher negra do grupo, eu era a preterida dos meninos e das meninas, sendo aceitável apenas que eu ficasse com os meninos também pretinhos. Talvez isso explique minha palmitagem durante um bom tempo. Como adulta, tive a falsa sensação de escolha.
O racismo, a maternidade solo, a violência doméstica, obstétrica e institucional e o estupro que sofri não me definem, nem me vitimizam.
Ultimamente, falar das minhas ziquiziras psicológicas e emocionais tem me fortalecido. Cada lembrança é um convite à reflexão e uma constatação do quanto mudei.
Tenho preferido ficar sozinha, mas esse não é um movimento sofrido. Pelo contrário: é um estado de presença de quem já não atura mais determinadas coisas, de quem não aceita menos, de quem não faz o menor esforço para se encaixar e que tem a certeza de que está sendo persona non grata em várias situações.
Tenho duas filhas, uma de 7 e outra de 19 anos, ambas do mesmo casamento (o tal da violência doméstica…).
Meu maior desejo é que minhas filhas se tornem mulheres livres e que nunca passem pelo que rolou comigo, mesmo sabendo que isso não será totalmente possível, pois elas também são mulheres negras.
Sou professora e estou fazendo minha segunda graduação em História. Inicialmente era para melhorar o salário, mas, sendo cria de uma universidade pública, ajudei a construir movimentos materno-universitários que mudaram radicalmente a minha visão de mundo. A interação com a coletividade me colocou em contato com o que há de mais humano: a diversidade. Sonhamos coletivamente com a construção de políticas e espaços que acolham as infâncias e nossos filhos e filhas enquanto estudamos. No plano individual, acredito que minhas filhas virão a ter orgulho de mim e do que estamos fazendo. Isso é de extrema importância para mim, já que a relação com a minha filha mais velha foi cruelmente afetada pela violência vicária.
Nunca tive a pretensão de cursar História para estudar temas distantes da minha realidade. A masturbação acadêmica nunca me atraiu. O que me encanta no curso de História é a compreensão do espaço e do tempo, de como as narrativas podem ser múltiplas e como elas podem estar ao alcance das pessoas. Temos o dever de levar em consideração as “Pedrinhas Miudinhas” lançando luz ao que ainda não foi contado, como diz o professor Luiz Antônio Simas, influenciado pelo ponto de boiadeiro de mesmo título.
Por aqui vou tecendo minha teia, unindo meus retalhos, deixando que me tramem, bordando memórias, escrevendo em pedaços de papel e tendo a consciência de que essa é uma das formas mais poderosas de (re)construção, na esperança de um dia me fazer inteira (ou não).
Autora: Adriana Pereira – @dricap007
Revisora: Samantha Viriato





