Ainda que pudesse imaginar a grandeza de ser abrigo da semente, nenhuma coreografia possível me colocaria segura para dançar o baile que vem depois do germinar.
Mesmo que meus pés tivessem desejado gingar diante dos novos sons, meu corpo pulsava, não em uma melodia harmônica, mas de dor. As sete camadas anatômicas invadidas pelo bisturi lembravam-me, a todo momento, que não era hora do show! Mas inaugurei uma vida, pensava. É a melhor razão para celebrar. Não vamos dançar?
Dois dias — na verdade, menos de 48 horas — foi o tempo máximo para que as pulsações abdominais fossem transferidas para os seios. As gotas de leite escorriam pelos bicos, e os lábios pareciam estar cientes do que estavam fazendo ali. Mas, conforme os dias se passavam, a desarmonia ficava cada vez mais evidente. As gotas que ainda escorriam agora eram de sangue.
“Dá um sorriso” (para a foto), disse meu pai, após uma tentativa corajosa de fingir que estava tudo bem. Minha menina no colo, com dez dias de vida. Clique! Deu-se o registro. Meu corpo, que sustentava uma infecção urinária e uma hemorroida gigante, clamava por repouso, mas a temida madrugada dos primeiros dias transformou-se em horas de terror.
Acordo no meio da noite com o corpo todo contorcido, dolorido, até perceber: é febre. Coloco as mãos nos meus seios, que pulsam; tudo virou pedra. Estão gigantes, duros, vermelhos. Não há mais gotas, nem vontade de dançar.
Vou para o banheiro, sento-me na privada, choro… choro mais. A dor não sai pelas lágrimas, tentativa falha. Tento fazer massagem nos seios, meus braços não respondem, contorcem-se. Minhas pernas não esticam, fico sentada.
Minha filha acorda. Quer leite! Quer teta! Minhas tetas não estão disponíveis para ela, nem para mim.
Choro mais.
Meu pai me acode, minha mãe acode minha filha. Sinto que perco toda a força. Minha pequenina chora, eu choro, mas não consigo colocar o que ela precisa na boca dela.
Choro mais.
Sinto muito medo.
Estou só o pó.
Depois de uma hora, uma dipirona alivia a febre. A cria volta a dormir. Tiro um pouco de leite na pia. Ainda está pedra. Choro. Durmo alguns poucos minutos. Choro da filha, boca no mamilo, dor; a fome passa, a dor fica.
Antibiótico. Analgésico. Anti-inflamatório. Laser. Antibiótico. Analgésico. Anti-inflamatório. Laser. O ritmo estava dopado.
Os dias que se passaram l e n t a m e n t e condensaram-se. A dor também. Sessenta dias.
Mas ainda há madrugada viva, e a apresentação aqui é quase sempre solo.
As tetas que estavam indisponíveis parecem estar disponíveis demais.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Às vezes vêm em par; por vezes, em ímpar. Nunca menos que múltiplos de três. São despertares noturnos infinitos. Atrás da mesma coisa. Tetas ou tetês!
Tetê! Tetê! Tetê! Repete a menina desesperada. De novo. Mais uma noite. Sigo em pé. Sentada. Fraca. Mal fecho os olhos, e o choro ressoa madrugada adentro. Um ano e dois meses. Quatrocentos e vinte e cinco dias sem que as pálpebras se acomodassem por algumas horas seguidas.
Perco cabelo. Milhares deles.
Há um arranjo no meu corpo que desconheço em detalhes.
Sinto uma disputa cruel com o líquido branco. Não vejo rota alternativa. Conforme ele vai sendo extraído, eu me encolho um pouco mais por segundo. Apago. Volto. Água. Outra garrafa. Nino.
Em pé!
Peguei-me em pé às duas e quarenta e seis da manhã. No meio do quarto. No silêncio. Escuro. Meu colo estava cheio. Cheio de mim. Cheio dela. Encostei meu nariz em seu rosto. Recebi um beijo. Fechei os olhos. Senti seu cheiro. Suas mãos me acariciavam.
Dei-me conta de que eu balançava em ritmo combinado.
Havia uma coreografia.
Dançamos!
Autora: Bruna Seron – @seronbruna
Revisora: Yhasmin Viriato





