A nossa sociedade é marcada historicamente pelo patriarcado e machismo. O sistema capitalista atropela vontades reais e profundas, tornando-as supérfluas e superficiais, desumanizando.
Por muito tempo, eu julguei outras mães pela forma que conduziam a maternidade. Eu, egoistamente, estava mergulhada nas minhas crenças, ideais e utopias, as quais entendia como sendo as melhores para o mundo, para o outro…mas, que ser superior eu acreditava ser agindo assim?
A real que bateu experienciando a minha maternagem é que somente eu sei o que de fato tem emergido da minha sombra nesse puerpério que parece nunca mais acabar – os medos, a estafa, as culpas, a dúvida, o querer sempre acertar, mesmo errando, os julgamentos, os olhares do senso comum condicionados a mim, ou a minha filha, e tantas outras coisas que atravessam meu corpo Atlântico diaspórico, carregado de memórias ancestrais.
E, mesmo tendo rede de apoio, há muitos momentos em que a maternidade é solo. Por conta do patriarcado e do machismo, acabo por ouvir: “queria ter filho, agora aguente”. Aí, eu tomo cuidado para meu ego não dominar meu ser, e novamente não sair julgando, até porque, às vezes, a mãe que o disse pode ter muitas feridas abertas, frustrações, e por aí vai; e, sim, só porque o outro não se curou de traumas, não sou obrigada a ouvir como devo me comportar ou agir com minha filha. De todo modo, não é fácil pensar ou agir assim. É desafiador. E nem sempre eu consigo fazê-lo, porque sinto, sou sujeito, não objeto.
Quem escolhe ser mãe, como foi o meu caso, também cansa, e é preciso que haja acolhida, afeto, escuta ativa para mães como eu, para que a gente possa falar isso sem o julgamento de parecermos estar arrependidas em termos nossas crias. É preciso que haja informação de qualidade, coerente e até científica algumas vezes pra ajudar nessa caminhada, pois, se já há momentos solos, o convívio social precisa ser um pouco mais presente de cuidados. As falas podem doer muito. É urgente atentar pra isso. É preciso que haja políticas públicas para essas mães, políticas visíveis e totalmente inclusivas, independentemente do corpo que está se preparando para parir.
A sociedade cobra filhos, mas o suporte emocional, físico e até espiritual é inexistente, não há assistência, só cobrança do sistema; e, olhando pra isso, fica bem nítido identificar a tríade do adoecimento: patriarcado + machismo + capitalismo.
Já diz o ditado africano que é preciso uma comunidade inteira para educar uma criança. Por isso, o cansaço também deveria ser menor, se o senso de comunidade fosse real e visível; tribos africanas e povos originários têm muito a ensinar a todos sobre comunhão, comunidade. Eu e tantas outras que queremos ter filhos, mesmo exaustas, não desistimos de esperançar por mais equidade pelos nossos filhos. Por esse motivo, a insistência em continuar. Seja com dores na nossa matéria ou no emocional, cá estamos, de pé, todos os dias, a olhar para o ser que mais nos ama na vida, desde o nosso ventre, porque os sorrisos e conquistas diárias desses seres gigantes nos dão um reset, nos reiniciam e nos salvam várias vezes no dia. É como se nos olhassem e dissessem: “eu sei, mamãe, você está cansada, mas logo essa fase vai passar, e talvez, você possa sentir saudades!”
Escrever sobre a minha experiência de maternidade é poder dar um abraço em cada mãe silenciada, sofrida, amada, e tantos outros adjetivos que estar sendo mãe pode carregar. É dar voz a essas pessoas que são mães, para que se sintam um pouco mais parte desse mundo, um pouquinho mais inteiras. É um afago.
Querer ser mãe não isenta ninguém do cansaço, e ainda assim, não desistimos de nós, por causa dos nossos filhos; nem do mundo, por causa dos nossos filhos. A gente mãe faz parte nesse mundo, com todas as nossas imperfeições, porque ser mãe é processo, reconstrução, não fim.
Texto de: Ana Lúcia Ribas – @anaribas.ayur
Revisão: Bibianne Terra





