Dar à luz a um adolescente: que mãe nasce quando o filho deixa de ser criança?

Meu nome é Aline, sou uma mulher negra, mãe de um adolescente de 15 anos e uma quase pré-adolescente de 9. Também sou psicóloga, psicanalista e atualmente estou num relacionamento homoafetivo.

Não é a primeira vez que escrevo sobre a experiência confusa e transformadora que é ser mãe: como mulher negra e mãe solo, por diversas vezes, encontrei na solidão da tela, num arquivo do google docs aberto, o único lugar possível de expressão do que é maternar para mim. Nos meus escritos solitários, expresso como a maternidade é impossível, não como um ato de amor, mas como uma idealização. Longe dos padrões familiares e sociais do que é de fato maternar, estou construindo uma maternidade mais engajada com os meus próprios valores, realidade e desejos. Ao fazer isso, estou cada dia mais afastando-me da maternidade socialmente compreendida como a suficientemente boa: branca, rica e heteronormativa. 

Foram necessários diversos textos, conversas, análise pessoal e uma busca incessante por referências que me trouxessem outra visão da maternidade. Um amor-cuidado que fosse possível eu exercer, sendo a mãe negra e solo de um menino e de uma menina, e apesar de ter dado à luz há 15 e 9 anos, sinto-me dando à luz, dia após dia, à mãe que sou para cada um.

Recentemente tenho dado à luz a um adolescente. Não qualquer adolescente, mas aquele que há pouquíssimo tempo era meu primeiro filho, o qual sinto ter errado aprendendo e o qual me inspirava pelo simples fato de existir, brincando com qualquer brinquedo improvisado, onde a minha visão pudesse alcançá-lo. 

Na busca por referências e conexões que me ajudassem a lidar melhor com esse período da vida, comecei a consumir conteúdos de mães de adolescentes, e um dos meus preferidos são os vídeos curtos em que são apresentadas cenas cotidianas: as respostas monossilábicas, os constantes pedidos de pix, os excessos de fome e sono e o uso inapropriado das telas. Dou gargalhadas infinitas com a angústia compartilhada entre mães e retratada comicamente.

Freud (1996) falava que uma das formas de nos havermos com a angústia é fazendo piada. Eu, obviamente, não sei fazer piada, apesar de me divertir muito com elas. Por isso, escrevo sobre o outro lado do que é engraçado, o lado da angústia, da solidão e da incerteza que é ser mãe de um adolescente, e posso garantir que não é só engraçado quando a única possibilidade de existência enquanto mãe é no famoso, “mãe, manda um pix”, ou quando eles deixam de nos chamar para ver alguma coisa legal que eles conseguem fazer com o corpo, ou ainda, quando desistem de nos ensinar a jogar o jogo preferido deles no playstation. Se fosse só por essas perdas, esses deslocamentos de qual era o nosso papel e qual papel está sendo construído agora, já seria difícil lidar, mas ainda tem outra questão: a insegurança! E se ele não der conta da vida com todas as suas façanhas? E, para ilustrar essa insegurança, trago um sonho:

Há algum tempo atrás, levei um sonho que tive com meu filho para a análise (os sonhos, para nós psicanalistas, têm um lugar mais que importante na compreensão de nossos afetos): sonhei que meu filho ia embora da escola numa van e eu, dentro do meu carro, olhava de longe: ele tinha a camiseta suja de sangue. Eu não sabia para onde a van o levaria e também não conseguia buscá-lo, como se eu tivesse as minhas pernas amarradas ao banco do carro. A minha analista disse algo como: Todos sangram na vida, e completou: Ele parecia feliz? Respondi: Ele parecia seguro e sereno.

Freud, em de seus textos mais famosos, diz que, no desmoronamento do complexo de édipo, a criança se desliga um pouco da mãe e investe em outros objetos. Na adolescência, esse desinvestimento volta a acontecer e, na melhor das hipóteses, ele encontrará outros amores, outros interesses (Freud, 2016). Mas como nós, as mães, vivemos esse rompimento? As mães que me leem, não sei, mas comigo tem sido um desafio diário: estabelecer limites que respeitem a capacidade dele de fazer escolhas, lidar com hormônios que hora ou outra parecem emanar raiva, impaciência e frustração e tem uma outra que é o que motivou a escrita do texto: a solidão de ser a mãe de um garoto adolescente o qual eventualmente está deixando de ser procurado, quase nunca é convidado para os encontros familiares e, quando é, fica perceptível o desconforto que o mau humor, a irritação, o impulso por discordar, por construir a sua própria versão da vida e das coisas causam em quem está por perto. 

Tem uma autora, também negra, que tem me acompanhado no processo de me tornar mãe,  Elisama Santos, e ela diz sobre a necessidade de criar uma relação com os filhos onde as expressões de raiva e frustração tenham espaço, onde não precisem ser suprimidas ou invalidadas (Santos, 2020). Então, mães, pais, avós, avôs, tias e tios, madrastas, padrastos, irmãos, irmãs de adolescentes e amigos da família: eles precisam discordar, precisam construir algo novo e radicalmente deles, mas esse processo não é feito sem conflitos, sem irritação, sem alguns comportamentos disruptivos.

Nesse processo, me vejo sozinha: a única que procura no quarto para propor uma atividade nova que tem 90% de chance de ele recusar, mas 10% de possibilidade de ele aceitar;  a única que aproveita qualquer possibilidade de estabelecer alguma conexão que faça com que a relação ganhe outros contornos; a única que prioriza algo importante para ele para não perder a oportunidade de se apresentar como alguém que o ama e que se interessa pela nova versão dele. 

Tem um outro lado importante e que só pude me dar conta atendendo adolescentes na clínica e debruçando-me sobre essa fase intensa e transformadora: eles precisam ter um lugar seguro para voltar. Sentir que são amados os ajudará a dar passos maiores, e não serem julgados ou subjugados faz toda a diferença na autoconfiança que terão para seguir na vida. Então, amem os seus adolescentes, apoiem e, principalmente, apoiem as mães dos adolescentes: elas estão parindo alguém novo. Encontrem uma forma de presenteá-las, não com mimos, como foi no primeiro parto, mas com cuidado, com escuta, com o desejo genuíno de acolher no mundo um outro ser: o ser adolescente. 

Referências

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 

SANTOS, Elisama. Por que gritamos: como fazer as pazes consigo e educar filhos emocionalmente saudáveis. São Paulo: Paz e Terra, 2020. 

Texto de: Aline de Carvalho Ciriaco – @ciriaco_eu

Revisão: Bibianne Terra

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