E por que ainda é tão difícil para as mulheres ocuparem lugares de destaque?
Na realidade não tenho somente uma, e sim, duas amigas concorrendo a um prêmio importante, e algumas conhecidas. Não tive a oportunidade de conversar com todas, mas já nos esbarramos no mundo do empreendedorismo e conheço boa parte das histórias.
É muito especial ver mulheres conquistando espaços e transformando realidades, e quando se trata de pessoas queridas, que conhecemos de perto e acompanhamos a trajetória, é ainda mais emocionante.
Onde vejo orgulho pela conquista, o senso comum aponta competição e rivalidade feminina, como se o fato de serem finalistas diminuísse ou roubasse o espaço de outras empreendedoras. O que acontece é exatamente o contrário, o sucesso delas nos fortalece trazendo mais representatividade, e abrindo espaço para as demais.
São histórias inspiradoras que passam a integrar o nosso repertório. Assim, cada vez que uma mulher se destaca, seja por receber um prêmio, abrir uma empresa, lançar um produto ou ocupar um espaço que parecia improvável, todas nós avançamos um pouco mais.
Conquistas individuais acabam ampliando o imaginário coletivo. Quando vemos uma mulher ocupando determinado espaço, aquilo deixa de parecer impossível. Se “fulana chegou lá, eu também posso”. E esse pensamento tem muito poder.
Vendo a página do concurso com as fotos de todas as finalistas, é grande o sentimento de admiração. Ao mesmo tempo, penso na quantidade de mulheres fazendo coisas incríveis, impactando o mundo e, que por vários motivos, ainda não conhecemos.
Entre os inúmeros motivos, existe algo que pesa muito: a sensação de incapacidade. Para começar, grande parte das mulheres nem ao menos se reconhece como empreendedora ou empresária. É muito comum questionarem o potencial e a qualidade do próprio trabalho, além de nunca se sentirem preparadas o suficiente para dar o próximo passo.
Empreender envolve muita coisa e tudo parece prioridade: plano de negócio, atendimento ao cliente, financeiro, logística – menos o CPF por trás da marca.
As pessoas esquecem de algo fundamental: preparar-se para ocupar espaços e para se vender.
Os grupos de mulheres empreendedoras buscam trabalhar essa temática, desenvolvendo mais segurança e autoconfiança. E o próprio convívio nos grupos é uma grande fonte de autodesenvolvimento. Embora pareça óbvio, é raro encontrar mulheres que:
- Costumam se inscrever nas oportunidades que aparecem;
- Sabem falar com desenvoltura sobre o próprio negócio;
- Falam sem pudores sobre os resultados de um trabalho ou uma conquista;
- Aceitam o fato de que seu trabalho é relevante para outras pessoas;
- Recebem um elogio e simplesmente agradecem, evitando o clássico: “imagina, não fiz nada demais”.
Somos uma geração de mulheres criadas para servir e agradar. Aprendemos que meninas boazinhas são comportadas, não incomodam e nem chamam a atenção. Tantos anos de educação e cultura repressora, deixa suas marcas. E algumas amarras são bem dolorosas e difíceis de romper. Ainda carregamos o peso dos olhares de crítica e reprovação.
Para quem aprendeu que chamar a atenção é errado, o receio de aparecer é real, além de uma sensação constante de inadequação e de estar ocupando um lugar que não lhe pertence. E, aquilo que que deveria fazer parte do cotidiano, como falar de conquistas, se destacar profissionalmente, buscar crescimento, se torna um desafio. Por isso, o medo de aparecer precisa ser encarado dia após dia.
O receio da opinião alheia e do julgamento é tão grande que muitas escondem planos e projetos da família, dos amigos e até do companheiro para não serem criticadas.
Na maioria das vezes, o olhar de reprovação e crítica parte da própria mulher que não se acha boa o bastante. Mas ao evitar o julgamento das outras pessoas, também está deixando passar oportunidades, sonhos e projetos importantes.
Quando uma mulher chega a um lugar de destaque, vale pensar:
- Quantas vezes ela precisou se convencer de que podia estar ali?
- Quantas vezes pensou em desistir?
- Quantas vezes sentiu ou ouviu que aquilo não era para ela?
- E quantas mulheres ainda esperam ter coragem para tentar?
Para conquistar espaços é preciso aparecer, para fortalecer a classe é preciso aparecer, para abrir caminhos para quem depende de nós é preciso aparecer, para deixar um legado é preciso aparecer.
Cabe a nós fortalecer a rede, olhar para o lado e indicar o trabalho de uma empreendedora talentosa, comprar da amiga, apoiar e validar suas iniciativas. Porque algumas vezes o que falta é o convite pra ir junto em um evento que pode render bons contatos, é ser apresentada para alguém que vai abrir portas, é o estímulo para se candidatar a uma vaga ou concurso, para aceitar um convite importante. Um “sim, você pode!” É tudo que ela precisa ouvir para criar a coragem necessária e seguir em um processo.
Quem são as mulheres que você conhece e que deveriam estar concorrendo também? É hora de começar a indicá-las, inclusive para elas mesmas. Vamos assumir essa responsabilidade.





