“O empobrecimento tem gênero e tem raça”. Com essa frase, a socióloga Vilma Reis resume bem o que a interseccionalidade vem tentando demonstrar.
Ela é uma das mulheres entrevistadas no documentário Mãe Solo. O curta-metragem traz para a tela a realidade de mulheres que são responsáveis pelo sustento e criação dos filhos, sem a participação efetiva dos pais dessas crianças. Essa é a realidade de muitas mães numa sociedade em que o abandono paterno é amenizado, justificado e naturalizado pelo patriarcado. Julgamento, falta de estrutura e de rede de apoio, abandono do poder público que resulta em falta de vagas nas creches. São alguns dos desafios diários dessas mulheres, sempre intensificados pela condição racial. “O empobrecimento tem gênero e tem raça”. Mulheres negras sofrem, também, as consequências do racismo. Encontram-se de modo geral, já na infância, em situação precarizada, resultado de anos de escravização de seus ancestrais, são subestimadas e subalternizadas de forma estrutural, sujeitadas ao emprego informal, mal pago e sem direitos trabalhistas.
É dentro dessa realidade que elas superam expectativas e exercem a maternidade com autonomia, responsabilidade e muito amor. Nos relatos que se pode ouvir no filme, mais do que o contato com a dura realidade dessas mulheres, o expectador se depara com o compromisso ético dessas mães, tanto no dia a dia da família, quanto na determinação de mostrar que podem ser vitoriosas, mesmo sem apoio algum.
Mas não é essa realidade que se quer para o futuro. A romantização da superação das pessoas pretas, pobres, subalternizadas seja lá por quais marcadores sociais a que pertençam não nos serve. O que nos serve é que ao olhar para produções como essa se perceba a urgência na solução desses problemas. O que nos serve é que esse tipo de história seja colocada no passado, que mulheres negras tenham as mesmas condições de vida e oportunidades de sucesso e bem estar que os integrantes das chamadas elites do país. Isso passa, sim, pela responsabilização dos genitores, mas depende ainda mais da erradicação do racismo estrutural e do machismo estrutural, os verdadeiros responsáveis pela precariedade que leva essas mulheres à condição de mães solo.
O filme está disponível gratuitamente na plataforma YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=v8s96sX1kwA&t=2
Além do documentário, recomendo conhecer a Música Dona de mim, citada pela entrevistada Keisiane: https://youtu.be/FnGfgb_YNE8?si=HSt6Tv2OJHUr1j9f





