Cecília

Caucasian woman smiling while sitting on a park bench in a serene outdoor setting.

Cecília nutria esperanças de que a agressividade do seu filho primogênito cessasse após a adolescência. Acreditava que os hormônios da fase o transtornavam: os chutes nas portas da casa, os móveis quebrados, os pratos explodidos na parede durante as refeições, resultado de qualquer desagrado, tudo acabaria um dia. Contudo, ele agora estava com trinta e cinco anos e pouco se modificou.   

No despontar da adolescência dele, Cecília chegou em casa após um dia de trabalho e me avistou, sua única menina, com várias manchas roxas pelo corpo. Levei uma surra de socos e pontapés do meu irmão porque a televisão estava em alto volume e isso não lhe agradava. Coube ao filho da vizinha intervir na sessão de pancadaria, na ausência de adultos. Quando a questionavam sobre a causa dos hematomas, Cecília redarguia:

—  Ela está aprendendo a andar de bicicleta — dizia, com um sorriso pálido no rosto. 

Fui obrigada, desde então, a acompanhar meu pai, todas as tardes, ao trabalho dele: o quartel da polícia militar. Era mais seguro que viver em casa. 

Durante muito tempo, Cecília suportou ser alvo das afrontas e grosserias do filho, como quem abraça voluntariamente um calvário. Nas situações mais hostis, ele ameaçava arremessar objetos nela e, envolto em gritaria, com o olhar turvo, erguia-os acima dos ombros, mirando a mãe. No seu íntimo, Cecília escondia a vergonha de ser tão maltratada por aquele a quem servia por amor.

Não bastasse uma vida de desgostos com as atitudes vis do filho, numa sexta-feira à noite, Cecília retornou à casa, atordoada, depois de uma ligação dos vizinhos. Ouviu-se um disparo de arma de fogo. Seu filho havia disparado um tiro em um amigo, raspando-lhe o pescoço, com a arma do pai militar. Cecília deparou-se com as paredes marcadas por digitais ensanguentadas. O sangue se espichava pelo assoalho de madeira, em filetes sinuosos e intermitentes, até pia do banheiro. O filho, que, segundo Cecília, nascera um bebê inocente, alegou que não queria matar o amigo; foi apenas uma brincadeira para “dar-lhe um susto”. 

O rapaz alvejado ficou internado por dias no hospital. O marido de Cecília, desonrado, aposentou-se precocemente da instituição militar. A arma foi devolvida à corporação. A família mudou-se, mais uma vez, deixando a cidade interiorana para se despersonalizar em meio à cidade grande. 

Cecília caiu absorta de vez quando descobriu que o primogênito abusava sexualmente do irmão caçula, de três anos de idade. “Por que logo a mim coubera parir a perversidade humana?!”. “Como agir diante de um segredo tão obsceno?”. Sem compreender aquela realidade que lhe fagocitava, Cecília embicou no abismo vertiginoso da humilhação e se prostrou em absoluta introversão. “Não sou uma boa mãe”, imiscuía-se na alma, reafirmando para si.

Com o cruzar dos anos, a adolescência não lhe supria mais as absolvições, o marido faleceu e os irmãos se afastaram o quanto puderam (não sem planos imaginários de ceifar a vida do algoz). Ninguém frequentava a casa daquela mãe, pois ele vivia sob o teto dela. Assim, a velhice sentinela chegara. Viúva, sozinha e acorrentada àquele filho, já não discernia se era culpada ou vítima.  “Como admitir que nem sempre a morte é uma maldição?”

Numa tarde opaca, Cecília irrompeu a minha casa, num estado de espírito deplorável. Meus filhos se assustaram muito e foram tomados de pavor pela cena. Ela vinha agarrada ao meu sobrinho de seis anos, de cuja cabeça brotavam rios de sangue. Preocupada, perguntei o que havia acontecido, acolhendo-os porta adentro.

— Seu irmão deu uma PAULADA na cabeça do filho dele! — resmungava Cecília, com os lábios quase convulsionando, expelindo gotículas de saliva e libertando pela boca seu ódio entorpecido. —  Olha aqui como está a cabeça dessa criança! – mostrando-me o neto afogado em choro.  

Revivi aquele amargor reincidente de desolação, tão conhecido. “Até quando ela vai acobertá-lo?”, questionava-me em silêncio, certa da inutilidade de censurá-la.  

Era a primeira vez que ele agredia fisicamente o filho único. 

—  Leve agora essa criança para o hospital! —  ordenava-me Cecília. — Vou para a delegacia! – grunhia, alvoroçada. 

“Ele vai matar meu neto”, repetia categoricamente Cecília a caminho da polícia, convencendo-se a exumar de seu sombrio coração algum sentimento de justiça, ainda que vivenciasse um paradoxo protetor entre o filho e o neto.    

Ainda mais do que salvar o neto, Cecília ansiava em resguardar seu sigilo: o primogênito rebentou de uma relação extraconjugal. 

“Maternidade”; “Violência Doméstica”; “Adolescência”; “Culpa”; “Abuso Infantil”; “Relações Abusivas”; “Abuso”; “Delinquência Juvenil”;  “Literatura de Denúncia” 

Autora: Débora Rodrigues
Revisão: Laura Bonruck 

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal