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Filha, você não precisa atender às expectativas de ninguém, nem às minhas. Você só precisa escrever sua história com coragem, com a autenticidade que eu percebo em você e de que tanto me orgulho.

Obrigada por ter me escolhido, por ser muito mais do que sonhei ou mereço. Vamos viver boa parte dessa jornada aqui na Terra juntas e sinto, dentro de mim, que teremos momentos lindos, que aprenderei muito com você. Na verdade, já tenho aprendido.

Estou longe de ser madura, generosa, abnegada, empática… mas você me mostra, com seus olhos amorosos de jabuticaba (os mais lindos que já vi), a ver o outro, a enxergar cada pessoa como merecedora de acolhimento, de aceitação, com defeitos, carências, inseguranças.

E vendo o outro, eu posso então me ver e me acolher também. Sabe, filha, não sou uma mãe vocacionada, daquelas que brincavam de bonecas, que sempre gostaram de cuidar dos outros, de maternar.

Eu achava que a maternidade não era para mim e, de fato, a maternidade é o maior desafio que já encarei na vida. Mas se não fosse por ela, eu seguiria vivendo na superfície, autocentrada, livre, um tanto egoísta e infantilizada.

Eu precisava viver essa experiência profunda, rica e desestruturadora. E, é quando falta o chão sob os nossos pés, que algo grandioso acontece. Nos transformamos, florescemos, não sem dor, sem lágrimas, sem medo ou angústia, mas com beleza, com pureza, com verdade. Inevitável cair no clichê “você nasceu e eu renasci”.

Nunca achei que seria mãe. Nunca achei que vestir a maternidade funcionaria comigo. Mas tenho construído isso da melhor forma que consigo, do meu jeito desastrado, confuso. Porém, com toda a entrega de que sou capaz. E, assim, vou conhecendo a Marcela mãe.

Sou essa pessoa que ouve o nome com estranheza quando mencionada a palavra mãe na mesma frase. Não me acostumei com a ideia. Às vezes, eu acho que quando estiver muito cansada, vou deixar você com sua mamãe e vou dormir, mas aí eu lembro que a mãe sou eu.

Desculpa por ter te recebido sem a força que eu gostaria, por ter projetado em você as minhas questões, as dores da minha criança ferida. Por te querer perto de mim o tempo todo, por sentir ciúmes da ideia de que você em alguns momentos vai me preterir (mesmo sabendo o quanto isso é saudável e necessário).

Quando li sobre exterogestação, entendi que a simbiose não decorre apenas da necessidade do bebê se sentir dentro do “útero” até que consiga fazer a transição para a vida extrauterina. É também pela mãe. Precisamos atravessar esse descolamento com gentileza. Precisamos também ser maternadas porque retornamos ao útero psicológico, lá atrás, quando tudo era presença e plenitude.

Dói quando não consigo me conectar com você. Quando sinto falta de andar livremente pelo mundo porque eu tenho que te receber com toda a disponibilidade que você merece.

Apesar disso, você é a melhor contribuição que eu poderia oferecer ao mundo. Quando eu partir, irei sabendo que fiz algo de bom por aqui: você.


Autora: Sou Marcela Moura, mãe de Luzia, com 6 meses. Estou em tratamento para depressão pós-parto e aprendendo a maternar. Insta: @desenvolvimentopessoal50

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