Carta da Eu do futuro (diretamente para o puerpério)

Oi! Eu sei que esse tempo parece infinito. Sei que você não se preparou. Sei que você não fez escola nem nenhum curso, você não é especialista. Sei que está tudo fora do controle e que, às vezes, parece que você vai se afundar no caos. Às vezes, parece que alguma coisa vai dar errado e que você será a culpada. A responsabilidade é enorme e pesa muito. É forte, é intenso, é avassalador, é imprevisível. E isso tudo é assustador. Eu entendo tudo o que você está sentindo. Tudo isso é válido e você merece ser acolhida. Você merece descanso, um tempo para respirar, para desabafar, para cuidar de si, para repor as energias, e nem sempre isso é possível. E isso dói, parece insuportável. Dá vontade de sair gritando e quebrando coisas. E está tudo bem! É só o seu corpo, a sua mente e o seu coração te dizendo que você chegou a um limite.

Não precisava ser tão sofrido, poderia ser de um jeito mais leve.

Mas vim aqui de um lugar que você não conhece. Venho do depois. Venho de muitos amanhãs além para te dizer que isso tudo já passou. Hoje eu já não lembro da dor, do peso, do medo, da exaustão. Eu precisei passar por isso para chegar até aqui. Meu filho cresceu e está lindo. Ele é saudável. Deu certo, tudo deu certo depois. Foi sacrificante mesmo e, é claro, valeu a pena. Tudo é muito intenso, enorme e gigante aí, não cabe em nenhuma medida que você consiga mensurar, e é isso mesmo. Você não está quebrada, você não está fazendo nada errado. E, mesmo que faça, se permita errar e não busque a perfeição. Você sabe que o mais imponderável neste mundo é e sempre será: a vida que pulsa. Mesmo que fosse de outro jeito, ainda assim seria muito e aterrador. De longe, é a tarefa mais difícil que você já recebeu, mas também a mais bonita. Cada minuto em que você se dedica, se esforça, se entrega e se abre para o aprendizado, você se torna mais. Enquanto estamos no meio e não olhamos de longe como observadores neutros, é tudo absurdamente gigantesco e, nesse caso, não é para menos mesmo, mas, como tudo nesta vida, isso também vai passar. E você vai conseguir chegar do lado de cá.

Lembre-se de olhar através da neblina de sentimentos quando tudo for muito difícil. Você não sabe o que fazer, como lidar, se suas escolhas são as mais acertadas, mas você está dando o seu melhor. Você está fazendo aquilo que é possível e o seu filho só precisa de você. Você é suficiente. Só precisa da sua presença do jeito que for. Às vezes meio torto, às vezes meio confuso, às vezes inseguro e medroso, mas sempre você. Para aqueles momentos em que você só queria um respiro e uma ajuda de alguém: pare, respire, pense no que é necessário ser feito e faça com calma. É você quem controla as suas ações, mesmo que pareça que é o seu sentimento quem domina o timão. Tente não mergulhar no que está sentindo e não se esqueça de que você vai conseguir atravessar.

Você é tudo o que ele precisa e, depois que isso tudo acontecer, você vai se lembrar com mais intensidade de tudo aquilo que foi bom, o resto será fugaz. Aquele sorriso de manhã ao olhar nos seus olhos. Uma gargalhada. Um passo. Um gesto. Uma novidade. Qualquer simples coisa que nunca fez antes. A mesma coisa que já fez inúmeras vezes, mas sempre de um jeito único e belo. E, quando ele for, será ele quem vai descobrir sozinho, mas o início de tudo veio de dentro de você. É físico, é biológico, mas é, sobretudo, uma força, um poder, uma luz. E foi você quem lançou no mundo. Tudo aquilo de mais bonito no mundo, claro, precisa de cuidado ao extremo, precisa de atenção, precisa de carinho, precisa de todo amor que há, e essa feitura foi tua. Foi você que fez. E foi grande, e foi espetacular. Não porque você foi a melhor, mas porque você foi simplesmente, e isso é tudo. Isso é um milagre. O amor nasceu, o amor brotou, o amor vingou e ele cresceu. E é perfeito.

E hoje, quando olho essa fotografia e me encaro no espelho, posso dizer com toda certeza: o filho é um eco. Cada segundo ressoou e, quando bateu em você, te lapidou. Hoje já não sou mais como você. Somos outra, mas quer saber de uma coisa? Você sabe: eu nem estou aqui. Eu não venho do futuro, eu estou aí contigo. Oi!

Por Ana Paula de Souza Campos – @hum.ana144

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