Até você me chamar

Abro os olhos e vejo o teto branco. Fico parada ali, observando uma infiltração. O peso sobre mim me paralisa. Estou tão cansada que não consigo voltar a dormir. São 2h da manhã.

Eu queria que isso acabasse. A morte me parece encantadora.

Não sinto minha perna. Preciso levantar para o sangue circular. Caminho. Deito. Preciso dormir. Estou cansada. Meu corpo não funciona — meus movimentos doem. Você começa a se movimentar na cama. Logo vai acordar. Preciso dormir.

Não encontro posição. Não encontro descanso. Não encontro silêncio dentro de mim. Meu corpo não consegue relaxar. Faço uma lista mental do que tenho que fazer.

A dor dói.

Já repassei tudo da minha vida para entender como cheguei até aqui. Me parece que existir dói. E se eu tivesse procurado ajuda antes? E se eu tivesse outro emprego? E se eu tivesse escolhido outro caminho?

A enxaqueca voltou.

Queria dormir, mas os pensamentos não param. Eu queria parar o tratamento. É muito cansativo. Eu queria que isso parasse.

Ouço um resmungo seu. Olho para o seu rosto e percebo que perdi o direito de morrer. Perdi o direito de parar de tentar.

São 5h30.

Levanto. Fico tonta. Me ergo. Meu corpo pesa. Eu me arrasto. Tomo um banho gelado. Escovo os dentes. Me olho no espelho e, de forma clichê, não me reconheço.

Tento me lembrar de quem eu era. De como era acordar com energia, descansada. Tento me lembrar de como era dormir bem. Mas isso já não importa mais.

Como uma doença pode tirar tanto de nós?

Vou para a cozinha preparar o café da manhã. Cada esforço, cada movimento exige concentração. Levantar o braço é como levantar uma bigorna.

Como vou aguentar viver assim?

É o quarto tratamento que inicio. Pego a chaleira e percebo a tremedeira. Me concentro para não me queimar — de novo.

Sento com meu copo de café e percebo que preciso me forçar a pegar o caderno. Reviso tudo e anoto mais itens na lista de afazeres. São tantas coisas.

Vejo que perdi o prazo para fazer os exames. Olho na agenda familiar e vejo que você tem consulta.

Fecho os olhos e tento imaginar minha vida sozinha, sem dor. Me vejo livre.

A liberdade é engraçada.

Repasso mais uma vez as escolhas que fiz até chegar aqui. Percebo que nunca, de fato, tive liberdade. Te imagino daqui a alguns anos e penso como será. Se eu ainda vou conseguir estar ao seu lado.

Isso me apavora.

Algumas lágrimas escorrem. Eu as enxugo, mas minhas mãos ainda tremem.

Queria que todas as dores sumissem. Queria que isso acabasse. Como eu queria.

Queria poder gritar. Queria surtar. Queria poder desmoronar. Queria conseguir explicar, para alguém, o que é existir assim.

Anoto os meus sintomas de hoje.

A morte deve ser libertadora.

Me relembro de que perdi esse direito.

Eu te ouço na cama. Subo as escadas. Abro a porta sem firmeza nas mãos.

Te vejo.

E vejo como você me vê.

Esse sentimento me consome — e, finalmente, algo em mim se liberta.

Eu abro um sorriso.

E tudo, por um instante, some.

Eu só quero estar aqui, ao seu lado, para te ouvir me chamar de mãe.

Por Adma Santiago — @admasantiago

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