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Filhos não são posse. Não é a primeira vez que falo sobre isso. Amor pelos filhos também não é algo inerente. É sempre bom ressaltar isso, já que o senso comum tem a triste mania de afirmar o contrário, mesmo com o discurso científico discordando disso nos últimos anos. O amor materno idealizado é nada mais que uma construção social.

Amar os filhos é, na realidade, uma construção do dia-a-dia. É ver um outro ser se desenvolver do início, aprender coisas novas, a lidar com outras pessoas e situações. É fascinar-se ao perceber como essa pessoa conforme o tempo passa se equipa para lidar com suas situações do dia-a-dia. Não importa de que forma a criança seja. Ela vai, conforme cresce, tentar lidar com o mundo e as pessoas da melhor forma que pode. E isso é maravilhoso de observar de perto. Poder ser o centro de apoio, ajudar esse outro ser humano nesse processo é algo mágico.

Por isso, acho tão importantes a abordagem sobre maternidade que vêm a partir de Ōkami Kodomo no Ame to Yuki (Wolf Children ou Crianças Lobo) e Parasyte (O Mangá veio para o Brasil com esse nome, mesmo que a wikipédia use o nome em japonês, resolvi usar o nome do mangá comercializado aqui). Porque elas reafirmam essa noção de que ser mãe envolve saber que esses filhos não são posse e que ser mãe é observar esse desenvolvimento dessa pessoa e contribuir com ele como se pode.

Ōkami Kodomo no Ame to Yuki é um anime que trata de relacionamentos interaciais, de uma mãe que se vê, após a morte do marido, a lidar com questões específicas da raça dos filhos. No caso, o pai das duas crianças era um lobo. Também é sobre ser mãe solo, fala da viuvez e do buraco que uma morte deixa em uma família. E ele mostra o crescimento dessas crianças. O passar do tempo é impressionante. Ame to Yuki é um anime sobre a história de uma família e de uma mulher. É sobre a história de vida da mãe e como ela tem de lidar com o fato de que não, seus filhos não pertencem a ela, que ela os está ensinando a sobreviver a esse mundo acima de tudo, mesmo que no fim, isso os levem para longe de si.

O que você quer? Viver como humano ou como lobo?

A história não é narrada pela mãe. A história conta a vida da mãe, pela perspectiva da filha mais velha. A filha conta a história de como os pais se conheceram, como casaram e sobre o dia que o pai faleceu. Trazendo comida para casa. Fala da luta da mãe para sobreviver e manter duas crianças, da decisão de deixar a cidade para que os filhos pudessem ter um espaço para serem quem eram e correr. Ela aprende a plantar, a cuidar de uma fazenda sozinha com suas crianças.

É maravilhoso ver as crianças crescerem, os vizinhos ajudando essa mulher. Mas o que dói em muitos momentos é ver a mãe que a mãe, por mais que tente, não é capaz de completamente dar conta da questão racial dos filhos.

Ela faz o que pode, mas são conflitos que ela não tem como ajudar totalmente, porque ela passa pelas situações junto com seus filhos, conforme eles passam por elas. Mesmo assim, ao fim de tudo, ambos seguem seus caminhos, e o anime termina com essa mãe contemplando o tempo da sua maternidade e refletindo sobre a mesma.

Ela termina sozinha em casa, um dos filhos seguindo como lobo, outro como humano. Cada um com suas vidas, mesmo que distante da mãe. E mesmo assim, para Hana, a jornada valeu a pena. Educar é dar espaço para que os filhos possam caminhar por si mesmos. Mesmo que isso inclua um caminho distante do seu.

Parasyte é um anime/manga que trata de um homem e sua mão direita. As imagens demonstram a transformação que o personagem tem após a morte de sua mãe.

Um dia, de maneira silenciosa, ocorre uma invasão alienigena. Não é possível saber quem são os aliens porque eles roubam os corpos de suas vítimas. São pequenos parasitas que ocupam e modificam o cérebro de suas vítimas. Como invasores de corpos. O personagem principal coloca fones de ouvido durante a noite, o parasita não entra em seu cérebro e para sobreviver, acaba ficando na mão direita da Shinichi e eles tem que aprender a coexistir no mesmo corpo.

O anime tem seu enfoque maior no questionamento do que é ser humano, o que faz alguém humano e sobre decência básica e convivência entre diferentes. A tolerância. Também tem uma mensagem ambiental forte e coloca o dedo na ferida ao deixar claro que o ser humano está sim destruindo o planeta. Essa é a premissa de Parasyte.

Porém, o que mais me chamou atenção foram os retratos de maternidade e como o cuidado que damos à nossa prole nos define dentro da nossa humanidade. Existem duas mães no anime.

A mãe do protagonista Shinichi e Reiko Tamura. A mãe de Shinichi, Nobuko Izumi durante o início do anime é uma personagem chave para determinar a personalidade do filho. Há uma construção dela e de como ela se queima a mão para proteger o filho e termina com uma cicatriz.

A lembrança desse momento fica guardada com Shinichi quando um parasita rouba o corpo de sua mãe após matá-la e tenta assassinar Shinichi, que se recusa a contra atacar porque aquela lhe parecia sua mãe. Até que ele percebe que sua mãe preferiu se machucar e ter uma cicatriz a ver o filho machucado. Só assim ele consegue revidar os ataques. Nobuko é uma mãe abnegada, que coloca seu filho acima de si mesma, passando seus valores para seu filho. O retrato mais comum de mãe que conhecemos.

Do outro lado da moeda temos a vilã Reiko Tamura, que engravida como parte de um experimento científico seu. Ela queria saber se o bebê gerado por dois parasitas seria humano ou parasita. Ela não idealiza a maternidade. Ela apenas se torna mãe. Ela não pensa em nomes para o filho. Ela apenas gesta. É a curiosidade científica que a faz não matar Shinichi e a faz se organizar com outros parasitas em uma espécie de conspiração de nível nacional pelo domínio da sociedade como a conhecemos. Ela não possuía sentimentos. É sempre retratada como uma mulher fria. Ela não lembra em nada Nobuko. Ela entretanto, amamenta, cuida de seu filho.

Ela paga uma babá que cuida da criança e estranha aquela mãe tão fria. E porque ela queria entender o que afinal era a maternidade (algo que no fundo todas as mães terminam se perguntando quando descobrem que não há nenhum click imediato que faz com que se ame os filhos), o que são sentimentos, o que é amar.

Ela aprende a cuidar de um bebê do zero, como todas as mães um dia aprendem. Conforme ela cuida de seu filho, ela desenvolve vínculo, ela aprende a gostar dele. Ela passa a se importar com ele. Mas é a convivência diária que faz surgir qualquer sentimento. É o ver a criança mudar que faz isso surgir. Até então, o bebê era um experimento fracassado. Isso não muda o fato de que Reiko se deixa matar para que o filho sobreviva.

Que ela faz, no fim, o que pode e como pode para que a criança possa seguir sem ela, da melhor forma. Reiko mostra perfeitamente o que é o arco do inicio da maternidade sem idealizações e pesos sobre si. Reiko como Hana, também é uma mãe solo. Ser mãe é um desafio que envolve mudar concepções sobre si mesma e que por fim, pode ocasionar a morte da própria identidade em prol de uma nova. E assim como Nobuko, ela mostra que a maternidade envolve muitas vezes sacrificar-se em prol desse outro que é a criança.

Mesmo sendo histórias fantásticas, ambas mostram um lado importante do que é ser mãe: responsabilizar-se e fazer o melhor possível como possível por esse outro, mesmo que não se entenda o que se está fazendo. Tanto Hana como Reiko tem que lidar com diferenças que elas não são capazes de plenamente compreender e mesmo assim que tem que suprir. Porque se elas não suprirem, ninguém o fará e essas crianças não irão sobreviver. Sim, também há todo um subtexto sobre diferenças raciais (porque tanto Hana como Reiko são de raças diferentes dos filhos de forma literal) e como isso afeta a maternidade em ambos os animes.

Ambos falam do real peso que é uma maternidade solo quando existem situações em que não é possível se dar a resposta para os filhos. Porque geralmente presumimos que filhos e mães possuem a mesma origem étnica, os mesmos referenciais. E nem sempre é assim. Existem mães que lidam com a negação de sua maternidade, com perguntas que elas não tem como responder para seus filhos, pois realmente lhes falta a base para isso. Porque nós imaginamos uma família uniforme , onde todos possuem um mesmo passado, futuro e referências. Uma família comercial de margarina. E não é assim.

Como essas duas mães mostram, a maternidade envolve lidar com desafios de nem sempre ter as respostas, ter de navegar por situações desconhecidas a todo tempo e enquanto se tenta descobrir as respostas certas, terminar esbarrando em soluções erradas e somente muito tempo depois descobrir que essas respostas eram erradas para seus problemas. E infelizmente perceber que o estrago já foi feito no meio do caminho após isso.

Porque, como esses dois animes mostram, ninguém nasce sabendo como ser mãe. Aprendemos conforme o caminhamos nessa jornada da maternidade.

EDIT IMPORANTE: Crianças lobo está na Netflix!

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