Ainda restam cinco horas

Rosana abriu o e-mail e viu o retorno da seleção. Sim, ela foi aprovada para fazer o curso que tanto desejava, uma oportunidade única. Mas, quando checou as datas de realização, percebeu que não teria como participar. Até tentou ensaiar alguns malabarismos, imaginou cenários possíveis para ajustar os horários, mas não, definitivamente não ia dar certo. Tranquilo, outros virão. É… o dia começou mais ou menos.

A rotina seguia sem nenhum sobressalto, imprevisto, tosse, aporrinhação, pé quebrado ou enxaqueca, para o bem de todos. À noite, Rosana teria uma reunião importante de trabalho e já estava com tudo preparado: fez as leituras necessárias, os esboços, tudo nos conformes.

Ah, mas claro, abriu mão de uma vivência de autocuidado superinteressante que ocorreria no mesmo horário. Como o convite para a vivência veio depois da marcação da reunião, ela achou melhor manter o primeiro compromisso. Então preferiu apostar na possibilidade de ocorrer uma nova vivência em outro dia. Afinal, autocuidado pode esperar… Será?

Perto das dezoito horas, Rosana começa a preparar a janta da família. Trinta minutos depois, o filho já está jantando e ela pode montar seu prato, na esperança de terminar de comer bem antes da reunião, que seria on-line. Assim, restariam alguns minutos para ir ao banheiro, ligar o laptop e iniciar pontualmente o compromisso de trabalho.

Decidiu colocar a tapioca na geladeira para esfriar mais rápido. Tudo pronto, Rosana começa a jantar… Só que não. Segundos antes, seu filho pede água, depois de já ter solicitado tantas outras coisas, às quais Rosana atendeu prontamente, enquanto preparava a própria refeição.

Nesse momento, como numa sinaleira, o farol amarelo começou a piscar. Rosana tinha que decidir entre acelerar, pra não correr o risco de furar o sinal vermelho, ou parar e esperar esverdear novamente. Ela pede para o filho esperar um pouco, já que ele tinha acabado de jantar, mas, na legítima busca por autonomia, o garoto se prontifica a encher a garrafa sozinho. E, nessa movimentação, Rosana antecipa o trasbordamento que viria em seguida.

O trabalho emocional do momento é intenso, e ela tem que equilibrar-se entre interromper o filho antes que a água molhe tudo ou deixar o fluxo seguir pela bancada da pia e chão, bem leve e linda, pra depois enxugar.

Nesse caso, das duas uma: ou não daria tempo de ela jantar, ou se atrasaria para a reunião. Rosana decide, então, colocar a água para o filho. Evita a molhação, mas, como esperado, se culpa por não aguardar o tempo necessário para o garoto viver a experiência de realizar a atividade sozinho, desenvolver uma nova habilidade, criar uma estratégia própria de resolução de problema, etc.

Daí já sabemos qual é a sequência dessa história. Começa com a culpa, depois vem a frustração, a tristeza, e lá vai ela reclamar da vida, se sentir um arremedo de mãe, uma profissional incompetente… E, nesse bolo todo, Rosana lembra da bendita tapioca na geladeira, que, a essa altura, já virou uma jujuba grudenta e gelada.

Ela solta um sonoro: “Faço tapioca pra todo mundo, mas só eu que não como”, depois de jogar a jujuba intragável no lixo. Dez minutos antes da reunião, Rosana, sem jantar, liga o laptop, deixando o eliminador cair no chão. O marido lembra: “Desse jeito vai quebrar, isso só piora as coisas”.

Rosana prontamente responde: “Então será só mais um problema para eu resolver. Nenhuma novidade. Sempre tenho que fazer um sacrifício enorme para conseguir dar conta das coisas mesmo…”.

Faltando dois minutos pra começar a reunião, Rosana abre o aplicativo enquanto nota um e-mail novo. Nele, a mensagem de cancelamento da bendita reunião. Ela desliga o laptop, vai pro quarto, liga o ventilador, apaga a lâmpada, deita na cama, pensa em dormir e lembra que ainda são 19:05h. Faltam cinco horas para o dia acabar.

Depois de algumas lágrimas — não se sabe se de tristeza, raiva ou tudo junto —, Rosana entende que o jeito é levantar e preparar outra janta. Afinal, se ela não fizer a comida, aí é que não come mesmo.

Por Madalena Magalhães – @madamagalhaes_2025

Revisão: Bibianne Terra

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