Existe um tipo de cansaço que não aparece no Lattes.
Ele mora entre uma aula e outra, no intervalo curto demais para ordenhar leite. Se instala no corpo ainda em recuperação, enquanto a cabeça tenta acompanhar conteúdos, prazos e provas. Ele aparece quando o peito dói — cheio — e não há onde esvaziar. Quando o bebê está longe. Quando o tempo não respeita o tempo do cuidado.
Eu sou mãe. E sou estudante universitária.
E, como tantas outras mulheres, descobri na prática o que significa viver o paradoxo entre o aleitamento materno exclusivo e as exigências acadêmicas.
Depois do parto, eu e muitas outras tivemos três meses. Três. Um tempo que, na teoria, a sociedade espera que dê conta de um processo intenso, físico, emocional e absolutamente transformador. Mas não dá. Não dá tempo de o corpo se reorganizar. Não dá tempo de estabelecer a amamentação com segurança. Não dá tempo de entender a nova vida que começa.
E então voltamos.
Voltamos para universidades que não têm onde amamentar. Que não têm onde ordenhar. Que não reconhecem que nossos corpos produzem leite — leite que dói quando não sai, leite que vaza, leite que alimenta.
Voltamos para salas de aula que exigem presença, produtividade e desempenho, como se não estivéssemos atravessando uma das experiências mais intensas da vida.
E, no meio disso tudo, alguém pergunta por quê não conseguimos manter o aleitamento materno exclusivo.
Nós respondemos: porque não nos deixam.
Não nos deixam pelo cansaço extremo.
Não nos deixam pela falta de tempo.
Não nos deixam pela ausência de estrutura.
Não nos deixam pela rigidez institucional.
Ordenhamos leite em banheiros — e, muitas vezes, temos que jogá-lo fora. Improvisamos espaços. Corremos contra relógios que nunca foram pensados para nós.
Introduzimos mamadeiras — muitas vezes com o nosso próprio leite — e vemos, com dor, nossos bebês recusarem o peito. Recorremos à fórmula quando todas as alternativas falham.
E carregamos, além de tudo, a culpa.
Mas essa culpa não é nossa.
Ela é de um sistema que politiza o alimento apenas no discurso, mas desresponsabiliza as instituições quando esse alimento depende do corpo de uma mulher. Que romantiza a amamentação, mas não garante condições para que ela aconteça. Que divulga seus benefícios, mas abandona as mães à própria sorte.
Defender o aleitamento materno não é apenas uma pauta de saúde. É uma escolha política sobre quais vidas são sustentadas — e quais são deixadas à exaustão.
Algumas de nós trancam disciplinas. Outras atrasam seus percursos. Muitas desistem.
E quem mais desiste são as mesmas de sempre: mulheres negras, mulheres periféricas, que dependem de transporte público, de assistência estudantil, de políticas que nunca chegam por inteiro.
A universidade, que se diz espaço de produção de conhecimento, falha em reconhecer o mais básico: não existe conhecimento sem vida. E não existe vida sem cuidado.
Nós não queremos escolher entre estudar e amamentar.
Nós não queremos escolher entre permanecer e maternar.
Nós não aceitaremos mais que essa escolha nos seja imposta.
O que exigimos não é privilégio.
É o mínimo.
Exigimos tempo — tempo real — para viver o início da maternidade.
Exigimos espaços dignos para amamentação e ordenha em todas as universidades.
Exigimos políticas institucionais que garantam a permanência de mães estudantes.
Exigimos ser vistas.
Cada gota de leite que se perde por falta de estrutura é uma violência silenciosa.
Cada mãe que abandona a universidade é um projeto interrompido.
Cada escolha forçada é um fracasso coletivo.
Nós não estamos pedindo.
Estamos denunciando.
E estamos afirmando: não há universidade inclusiva enquanto as mães precisarem resistir para existir dentro dela.
Cuidar é trabalho.
Cuidar é político.
Cuidar sustenta o mundo.
E o primeiro alimento da vida não pode continuar sendo tratado como um detalhe.
Para que nenhum leite a mais seja derramado.
Por Andressa Muniz – @muniz_comz
Revisão: Bibianne Terra





