Saúde mental materna: quando a maternidade precisa ser vista por inteiro

A tender moment of a mother lovingly embracing her baby indoors, highlighting family warmth.

Maio é o mês marcado pela campanha de Saúde Mental Materna. A proposta é simples, mas muito necessária: lembrar que toda mãe importa. Não só o bebê. Não só a barriga. Não só a amamentação. Não só o parto. A mulher que gesta, pare, cuida e atravessa tantas mudanças também precisa ser vista, escutada e cuidada.

A maternidade também muda de tom. Tem dias claros, dias difíceis, dias confusos, dias bonitos, dias em que a mulher se sente forte e dias em que mal consegue reconhecer a si mesma.

Falar de saúde mental materna não é falar contra a maternidade. Também não é dizer que ser mãe é apenas sofrimento. É, antes de tudo, abrir espaço para uma conversa mais honesta. Porque muitas mulheres amam seus filhos e, ao mesmo tempo, se sentem cansadas, sobrecarregadas, ansiosas, inseguras ou sozinhas. Uma coisa não anula a outra.

Durante a gestação, é comum que a atenção das pessoas vá quase toda para o bebê. Perguntam o nome, o sexo, o enxoval, o parto, o quarto. Mas, muitas vezes, poucas pessoas perguntam de verdade: “E você, como está?”. Depois do nascimento, isso pode continuar. As visitas chegam, olham o bebê, querem saber da amamentação, do sono, do peso. E a mãe, que também acabou de nascer em um novo lugar emocional, pode ficar invisível.

Essa invisibilidade tem consequências.

A gestação e o pós-parto são fases de grandes mudanças físicas, hormonais, emocionais, sociais e familiares. A mulher passa por transformações no corpo, na rotina, no sono, na identidade, na relação com o companheiro ou companheira, com a família, com o trabalho e consigo mesma. Mesmo quando a gravidez foi desejada, isso não significa que tudo será simples. Mesmo quando existe amor, pode existir medo. Mesmo quando há rede de apoio, pode existir solidão emocional.

Por isso, precisamos parar de tratar o sofrimento materno como exagero, fraqueza ou falta de gratidão.

Frases como “mas o bebê está bem, isso que importa” podem parecer inofensivas, mas silenciam a mulher. O bebê importa, claro. Mas a mãe também importa. E cuidar da mãe é também cuidar do bebê. Uma mulher emocionalmente amparada tem mais condições de viver a maternidade com segurança, vínculo e presença possível, não perfeita, mas possível.

É importante lembrar que tristeza intensa, ansiedade constante, irritabilidade, sensação de incapacidade, choro frequente, medo excessivo, culpa persistente, dificuldade de dormir mesmo quando o bebê dorme, falta de prazer, sensação de desconexão ou pensamentos muito angustiantes não devem ser ignorados. Esses sinais não significam que a mulher é uma mãe ruim. Significa que ela pode estar precisando de cuidado.

E cuidado não é luxo. Cuidado é necessidade.

A saúde mental materna não começa apenas no pós-parto. Ela precisa ser considerada desde a gestação, no pré-natal, nas conversas com a família, nos atendimentos de saúde, nas políticas públicas, nos grupos de apoio e nas redes que cercam essa mulher.

É um convite para que a sociedade pare de cobrar uma maternidade idealizada, silenciosa e sempre feliz. Mães reais sentem. Mães reais se cansam. Mães reais têm dúvidas. Mães reais precisam de espaço para falar sem medo de julgamento.

A maternidade não deveria ser um lugar de isolamento. Nenhuma mulher deveria precisar fingir que está tudo bem para ser considerada uma boa mãe. Nenhuma mulher deveria atravessar o puerpério acreditando que pedir ajuda é sinal de fracasso. Nenhuma mulher deveria ser reduzida ao cuidado que oferece, como se ela mesma não precisasse ser cuidada.

Falar sobre saúde mental materna é falar sobre prevenção. É falar sobre escuta. É falar sobre rede de apoio. É falar sobre profissionais preparados. É falar sobre famílias mais atentas. É falar sobre políticas públicas que reconheçam a mulher para além da função materna.

Talvez, a pergunta mais importante não seja apenas “como está o bebê?”, mas também:

Como está essa mulher?

Ela tem conseguido descansar?

Ela tem alguém com quem falar sem ser julgada?

Ela tem sido ouvida?

Ela tem recebido ajuda prática?

Ela tem espaço para existir para além da maternidade?

Essas perguntas parecem simples, mas podem abrir caminhos de cuidado.

Que as campanhas de saúde mental materna no mês de maio não seja apenas uma campanha bonita nas redes sociais. Que seja um lembrete coletivo de que a maternidade precisa ser vista por inteiro: com suas belezas, suas contradições, seus desafios e suas necessidades reais.

Porque quando uma mãe é cuidada, algo muda ao redor dela.

E quando a sociedade aprende a olhar para essa mulher com mais responsabilidade e menos julgamento, a maternidade deixa de ser um peso vivido em silêncio e passa a ser uma travessia mais acompanhada, mais humana e mais possível.

Autor

  • Paula Alves

    Paula Alves é psicóloga de gestantes - CRP04/31469, mãe da Maria Cecília e é especialista em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, com mais de 15 anos de experiência. Atua no acompanhamento psicológico de gestantes e mães no pós-parto, além de ser docente em um curso de formação de doulas. Acredita que maternar não deve ser sinônimo de solidão e que falar sobre saúde mental materna é fundamental. No Instagram, compartilha reflexões e conteúdos sobre o tema: [@paula.psiperinatal].

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