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Essa não é mais uma história sobre alguém que por algum motivo teve que se reinventar. É um relato real que mostra como somos despreparados emocionalmente para as mudanças e transições da vida. 

Quando decidi mudar não imaginei o quanto isso influenciaria a minha vida. Como sempre peguei um papel em branco, tracei uma linha meio torta, coloquei a playlist da inspiração e ali descrevi tudo aquilo que minha imaginação pode permitir; de um lado pontos positivos, do outro os menos positivos.

Prefiro tratar o segundo grupo com mais carinho, afinal de contas, se o pensamento tem poder que seja para o bem.

Reuni naquela pequena dimensão tudo o que acreditava ser imprescindível pensar. Li, reli, reli novamente, peguei um café, li de novo, fiz caras e bocas e no incrível espaço de quinze minutos o checklist estava pronto: 

 

  •     Vontade de ser mãe? Confere! 
  •     Idade para ser mãe? Confere! 
  •     Candidato a bom pai? Confere! 
  •     Trabalho para bancar o filho? Confere! 
  •     Casa? É, confere! 
  •     Momento pessoal para ter um filho? Ah, momento a gente que faz! 

 

Tive a certeza de que não faltava nada, já era hora de pesar os pratos e enfim dar o próximo passo. Cento e quarenta e nove dias depois, estávamos nós dois, ouvindo pela primeira o coração que já batia e muito forte. 

Foram tempos bons, tranquilos e emocionantes. O pequeno ser crescia perfeito dentro do seu mundo, meu mundo continuava o mesmo, o nosso mundo estava como sempre foi, em paz. 

Era então o dia da chegada e nós felizes e apaixonados o recebemos com todo silêncio e tranquilidade que sempre tivemos. Dali em diante foi como navegar sem bússola em alto mar e meu grande planejamento de um quarto de hora se foi como um apagar das luzes. Éramos eu, ele e poucas referências de família.

Não havia a avó na casa ao lado, nem enfermeira, doula, babá, nem a vizinha do andar de cima. Éramos apenas nós. Com dez dias de vida o pequeno já me acompanhava no trabalho e, entre uma mamada e uma fralda suja, tentava de todas as formas evitar a falência. 

Como nem sempre tudo sai da maneira que idealizamos, estávamos de malas prontas para uma nova tentativa tão distante e obscura como as outras, mas dessa vez éramos três. O que faríamos nós, dois cozinheiros e um bebê? 

Sabemos que a realidade da profissão nos consome sábados, domingos, feriados e dias santos. A creche, mesmo que pública, seria uma solução parcial. Uma babá de repente? Fora de cogitação! Além de financeiramente inviável era impensável deixar nosso pequeno sob os cuidados de alguém que não conhecíamos em uma cidade completamente estranha.  

Optei pelo mais lógico e, sem saber, comecei a maior mudança de toda a minha vida. Mudei a maneira de pensar, de vestir, de comer, de sentir. Mudei o hábito de programar todos os passos, o como colocar minhas ideias, a forma de dormir e acordar, a sequência do banho, a frequência das refeições. 

Deixei de lado velhas manias, o TOC por arrumação, as rotinas de beleza, os livros, as músicas preferidas, a carreira e assim, pouco a pouco, fui me deixando pelo caminho.

Meus dias se dividiam entre Joca dormindo e Joca acordado. Era um acordar, fralda, leite, parquinho, fruta, brincar, almoço, cochilo, lavar roupa, brincar, fruta, brincar, jantar, dormir e guardar brinquedos sem fim.

Conforme ele crescia, eu, pouco a pouco, me tornava menos necessária no seu dia e, nessas nesgas de tempo, fui reencontrando meus bocados já empoeirados. De tão velhos quase não os reconhecia, mas de alguma forma sabia que ali estavam partes daquilo que me fez o que sou; minha essência, minhas vivências, minhas escolhas

Percebi talvez a maior sacada de todas, que mudança e transição não são sinônimos, são partes muito distintas de um processo para as quais nos preparamos (ou não) de formas diferentes. 

A mudança é um marco, uma ação momentânea que acaba assim que é colocada em prática. A transição é tudo o que acontece com você e sua rotina a partir dessa escolha.

Se você não tem um carro e decide comprar um, você vai até a concessionária, paga o carro e pronto, o carro é seu. Você passou de ‘sem carro’ para ‘com carro’. Isso é uma mudança.

Assim que você pega as chaves do carro tem que se preocupar com taxas de seguro, impostos, com a garagem para estacionar, com o trânsito, com a segurança das outras pessoas, com as multas de velocidade, com o dia do rodízio. Todos esses acontecimentos são a transição do ‘sem carro’ para o ‘com carro’.

Mudança é o ato de mudar, de dispor de outro modo, é um evento. Transição é a passagem de um estado para outro, é tudo o que vem com a mudança. Eu com certeza não me preparei para a transição do que fui para o ser mãe. Tão pouco sabia que ela existia.

Tentei de todas as formas encaixar a cozinheira, nômade, com planos de trabalhar noite a fora cada pouco em um país diferente na mãe que quer estar presente no parquinho, no levar e buscar da escola, no filme com pipoca aos domingos, no bom dia e boa noite de todos os dias.

 

Se isso é possível? Talvez para alguém seja, mas para mim não foi.

Entendi que, para mim, ser mãe foi uma mudança desejada e planejada, mas que não havia nenhum esboço de esquema para tudo o que viria depois dessa decisão. De maneira simples imaginava que tudo se transformaria, como num passe de mágica, num conto de fadas.  

Achei sinceramente que as pessoas me dariam o banco no ônibus quando me vissem com um bebê e quatro sacolas na mão, que meu leite seria eterno e eu jamais precisaria comprar latas de comida em pó, que meu chefe entenderia perfeitamente minha ausência quando meu filho estivesse com trinta e nove de febre, afinal de contas ele também é pai, que eu deixaria o pequeno sem pesar em uma escolinha e iria feliz e realizada cuidar da minha vida, que minhas unhas e as pontas duplas do cabelo se resolveriam por si só. 

 

Passei pelas três fases desse caminho. 

A da negação, quando insistia em manter os antigos padrões, buscando trabalhos noturnos e organizando a rotina como a da vida de solteira.

 A zona neutra, na qual exausta de tentar manter o mesmo molde e com medo de seguir um novo caminho, optei por me deixar para trás, na esperança que alguém me tirasse do sofrimento em que me encontrava.

O reiniciar, quando depois de um profundo reencontro tomei coragem e encarei o risco de começar de novo do zero. 

O reerguer é lento e desafiador. Olhar para si e conseguir enxergar-se são as partes mais duras e recompensadoras do processo.

Eu finalmente entendi que a vida é cheia de escolhas, que cada escolha determina uma mudança e que, preparados ou não, é preciso ver e viver a transição em todas as suas fases. 

Resolvi recomeçar uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias, porque a vida pertence a quem se arrisca e, com toda a certeza, eu não vim nesse mundo a passeio.

 

Autora:

Meu nome é Paula Marcolin, sou nutricionista, gestora de projetos, cozinheira, mãe, nômade, aprendiz e escrevedora. Sou uma entusiasta do novo, devoradora de livros e faço da escrita minha maior terapia. Apesar de tantos acontecimentos, descobri minha maior paixão há três ano, o meu pequeno Joaquim.

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