A mãe preta que se forja

A heartfelt scene of a baby embraced by a mother in Lusaka, Zambia, indoors.

Que tipo de mãe minha filha merece ter?

Uma filha não planejada, contudo, muito amada e muito querida. A maternidade começou quando eu soube de sua existência por meio daquele exame realizado em dezembro de 2011. 

Quanto acolhimento e quanto afago tive de minha mãe! Aquela que me amou desde o meu nascer até o seu desenlace nesta vida terrena. Dela herdei a força de mãe e a força do Divino. Durante o meu desenvolvimento, assisti  à mãe benzedeira, à mãe afetuosa e cheia de fé que tudo fazia e tentava para o bem dos filhos. 

Minha filha não veio com um manual de instruções. Entretanto, até aqui, tenho me preparado e transformado para que exemplos de bem sejam observados e perpetuados por toda a existência. São muitos anos em que a vida tem me desafiado com essa maternidade viva de afeto, responsabilidade, erros e acertos. 

Nos últimos anos, precisei me colocar na posição de mãe solo por inúmeras razões. A vida me convidou a experimentar a capacidade de resistência quando, em minha mente, surgiu o pensamento: “quem precisa sobreviver na selva?” 

Deixar uma casa, sonhos, tudo que foi construído a partir do conceito que eu tinha de família; levar comigo minha filha, alguns pertences, coragem, mas também culpa, vergonha e medo de não saber como seria minha jornada a partir daquela saída, não tem sido fácil. Contudo, pensar que posso oferecer melhores direcionamentos à minha filha, para que ela tenha uma vida mais digna, um caminho seguro e mais feliz, faz todo o esforço valer a pena. 

Sou uma mãe preta. Conheço o peso das indiferenças, das desconfianças, dos julgamentos e dos bons combates que nem sempre foram vistos. Sou a mãe preta que reconhece e agradece o legado deixado pelas mulheres que vieram antes de mim e que trabalha para fazer a diferença na vida da minha filha e de outras mulheres; decidi permanecer de pé, com confiança, otimismo e alegria, sustentada pela Força Maior que me governa e ilumina. 

Quando escolho viver com a lição, e não com a dor; quando escolho extrair os melhores pensamentos e sentimentos de situações complexas e difíceis; quando escolho acreditar na existência de dias melhores ao acordar todas as manhãs; quando cultivo, preservo e protejo a minha vida e a da minha filha; quando observo os resultados de um trabalho realizado com amor, respeito e responsabilidade: tudo isso me torna mais leve para querer avançar e continuar o meu legado.

Desde o nascimento, minha filha também observa e aprende com aquilo que  falo e, principalmente, com aquilo que faço. Por isso, escolho continuar e não desistir. Por isso, acordo todos os dias agradecendo por tudo e por todos os sinais de benevolência do Criador que, a todo tempo, se manifesta e preside os meus momentos. 

A consciência da existência de um Ser Maior, que pode ser sentido por meio de todas as formas da natureza — humana, animal, vegetal, mineral e tantas outras — faz-me ascender e transcender nesta vida, permitindo-me olhar para além do físico. 

Escrevo pelas mulheres pretas que saíram de casa com os filhos, levando poucos pertences, coragem e perseverança. Pelas que resistiram e reorganizaram a vida quando o mundo insistia em dizer que reconstruir era impossível. Pelas que transformaram a própria existência em casa segura para os seus. 

Minha escrevivência nasce dessa força, dessa fé ativa que me faz acreditar e observar os pequenos e mais bonitos detalhes da vida. Ela nasce para testemunhar a força que eu ainda não conhecia e para mostrar as possibilidades de elevação que podem surgir depois da violência. 

Permaneço acreditando no amor. Permaneço acreditando no bem. Permaneço acreditando na verdade. 

Enquanto vida eu tiver, minha filha saberá que sua mãe escolheu deixar como herança a coragem, o respeito e a dignidade, em vez do medo, do ressentimento e da desistência, porque valores e virtudes são imperecíveis e aproximam o nosso espírito.

Essa é a história que escrevo diariamente e empresto com alegria para que inspire e alcance outras mentes e outros corações como estímulo, e para lembrar que somos herdeiras do Dono do Mundo e fomos concebidas para vencer e ser felizes nessa Terra.

Autora: Andrezza Silva

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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