Essa semana, tive um insight na terapia. Talvez não seja algo revolucionário para o mundo, mas para mim foi um divisor de águas.
Sou mãe de primeira viagem de três crianças. Com duas delas, vivo a experiência da adoção tardia. Nessa construção da nossa parentalidade, um dos maiores desafios tem sido a quebra rápida — quase instantânea — das minhas projeções e idealizações.
Idealizar é um movimento natural, talvez inevitável. Quem cria, carrega consigo desejos, valores e sonhos para suas crias. Eu não sou diferente. No entanto, minhas filhas mais velhas já chegaram com uma história própria. O que vivo hoje, na verdade, é o compartilhamento de vida que elas me permitem ter. É nesse encontro real que as projeções bobas — aquelas que toda mãe cria no silêncio da espera — se quebram com uma facilidade impressionante.
Algumas dessas expectativas ruíram bem rápido. Eu planejei ser a mãe que lia todas as noites, a mãe da cama aconchegante, a mãe da democracia absoluta, da liberdade e do diálogo ininterrupto. Mas, na prática, virei a mãe “cheia de historinha”.
Sinceramente? Que sorte estar em terapia. Quebrar uma projeção de uma vez só dói, cansa e fere o ego.
Muitas vezes ouço: “Mas isso é da maternidade, não é específico da adoção”. Eu sei. Mas, no meu caso, não houve o tempo de uma construção gradual. Não houve o ensaio. Um dia, minha filha decidiu que a manifestação política que eu sonhei em levar como um momento especial simplesmente “não era legal”. E pronto: a projeção se despedaçou ali, sem espaço para negociação ou planejamento. Foi direto, intenso e definitivo.
É nessa intensidade que aprendo, todos os dias, que ser mãe por meio da adoção é, acima de tudo, aceitar a história que elas já escreveram. É acolher a vida que elas aceitam compartilhar comigo e aprender a lidar com o que sobra das minhas próprias expectativas — tanto nas noites em que nada sai como o previsto, quanto nos pequenos momentos de sorte e alegria que surgem do caos.
Tenho usado minhas redes como um diário — mas aquele tipo de diário que a gente escreve porque sente que a reflexão precisa de eco. A maternidade, e especialmente a adoção, ainda carecem de espaço de fala real. A demanda do dia a dia é tão voraz que o tempo para desabafar, escrever e organizar os sentimentos quase não existe.
Hoje, consegui esse tempo no meio da logística de transporte das crianças. Eu precisava compartilhar o que sobrou depois que a projeção quebrou. E o que sobrou é, finalmente, o que é real.
Por Ana Duarte – @anaduu_arte





