Essa semana, levei minha filha caçula para uma consulta médica. Enquanto aguardava e deixava ela brincar com meus cabelos eu observava duas figuras na sala de espera. Uma senhora, que tinha atendimento prioritário, havia perdido a carteira do plano e estava negociando com as atendentes. Ela falava em alto e bom som sobre como era prioridade da prioridade por já ter mais de 80 anos. Do outro lado, sentada em uma poltrona estava uma mulher com, seguramente, metade da idade da senhora Prioridade. Ela era jovem com um estilo conservador e lia um livro sobre devoção a Deus (lembro bem da capa do livro, mas não vou mencionar o nome aqui). Ela acompanhava a filha que devia ter uns 10 anos.
Quando a senhora Prioridade ia saindo (desistiu da consulta) se deparou com uma mãe recém-chegada à sala de espera. Essa mãe estava com três filhos que, por muito pouco, não eram trigêmeos. A senhora Prioridade brincou com uma criança (eles eram muito fofos) enquanto dizia para a mãe “oh minha filha, tadinha de você, cuide-se, oh Deus, três crianças”. A mulher Devota ficou visivelmente indignada. Deixou o livro de lado, levantou e disse “são três riquezas do Senhor, filho é bênção, eu também tenho três e queria ter mais”.
Nesse momento, eu congelei completamente chocada com essa declaração. Eu logo pensei “os filhos dela dormem bem, comem bem, que sorte!”. A senhora Prioridade não se deixou abalar e tentou fazer valer seu ponto de vista. Indireta vai, revolta vem, a senhora Prioridade foi embora, mas antes de sair pela porta falou “eu também tenho três filhos e fiquei viúva quando meu caçula tinha 3 anos. Sofri muito tentando colocar comida na mesa, indo de um lado para outro, enquanto cuidava sozinha de três crianças”.
Essas duas mães (a senhora Prioridade e a mulher Devota) estão em lados opostos do campo: uma vê a maternidade (me refiro à função ser mãe que não tem relação nenhuma com o amor aos filhos) como uma verdadeira lástima, já a outra, como a maior dádiva. Dois dias se passaram e caí de paraquedas em um podcast antigo que falava da Mãe Arrependida e por qual motivo essa romantização da maternidade (liderada por mulheres como a mulher Devota) é nociva e irreal.
A senhora Prioridade carregou as dores de ser mãe e do que essa função representou na vida dela por mais de 80 anos. Ela está presa no tempo psicológico do que a maternidade representou (e ainda representa) para essa mulher. Ela não seguiu em paz, já que viu em uma mãe aleatória sua relação consigo mesma. Outro ponto a se refletir é como a religião interfere nesse sentimento, já que Deus fez a mulher para ser mãe e a igreja (comandada por homens, diga-se de passagem) insiste que a maternidade é “padecer no paraíso”.
Acontece que ser mãe é viver em uma dualidade constante. Se você se dedica integralmente a outra pessoa, você pode ser feliz, claro, mas essa felicidade está atrelada à vida de alguém (seja filho, marido, cachorro) e não à sua. Enquanto isso, a senhora Prioridade carrega um fardo e enxerga sua maternidade com muita culpa e isso, provavelmente, vem da visão que temos sobre ser uma mãe perfeita. Mas, copiando descaradamente um trecho do livro A Grande Magia, “para permanecer no jogo, você precisa abandonar a ideia de perfeição”. Afinal, “não temos tempo para perfeição”.
Depois de muito me culpar por não ser a mãe ideal, comecei a refletir que eu sou uma mulher, que é mãe, esposa, filha, funcionária, cozinheira, artesã, escritora, leitora, e por aí vai. Sou a mãe dos meus filhos e, ainda que eu faça o papel da mãe “perfeita”, deixarei alguma marca negativa neles, porque, meus amigos, feito é melhor que perfeito. Enquanto o dia só tiver 24 horas eu irei fazendo algumas coisas do jeito que dá. E isso, descobri, é amor.
Por Julia Santiago Lira – @juliasantiagolira





