A gestão do pão dormido

Uma amiga de uma empresa antiga um dia disse, apreensiva:

— O dia que eu chegar ao ponto de dar pão dormido para minha filha, eu falhei miseravelmente como ser humano.

E olha que ela era casada, a filha estudava na rede pública (na minha cabeça, nem passava tanto aperto assim); afinal, eram dois salários para sustentar a menina. Naquela época, o salário mínimo era uns R$ 500,00, logo, até um saco de pão dormido devia ser, no máximo, R$ 2,00. Eu mesma já paguei R$ 3,50 em um saco com cinco pães.

Um dia em que eu peguei um saco, estava com uns oito pães e sem a etiqueta de preço. Geralmente, o saco com 4 pães custa R$ 2,50. A mulher do caixa olhou, assustada, e falou:

— Isso é pão dormido mesmo?
Eu já estava pedindo a Deus para ela só cobrar e me liberar. Esse foi um dia de glória! Imagina só: dois sacos com 4 pães cada são 5 reais, e eu estava levando um saco com o dobro de pães pagando só R$ 2,50.

As crianças comem muito e nem sempre tem lanche farto para dar. O pão com margarina salva vidas. E, se tem o gás, a gente amassa ele na frigideira; ele volta a ficar crocante de novo. Às vezes, comemos até com ovo fritinho. Daí, lanço aquele sucão de limão bem geladinho: dois limões, jarra com água, gelo e açúcar.

Já teve época de não ter o que beber no trabalho após o almoço, daí levava limão. Já que lá sempre tinha açúcar para o café da máquina, então era um gasto a menos. Um dia, subestimaram meu limão, me perguntando se realmente ia fazer um suco com ele. Eu disse que sim! Passaram a me ver fazendo tantas vezes, que alguns até passaram a fazer também.

Já fiz as contas: o limão pode custar no sacolão, no máximo, R$ 6,98. Se você comprar 1 quilo, dá, em média, de 10 a 15 limões, dependendo do tamanho. Se você usa 1 limão por dia no trabalho, são 15 dias de suco garantidos. Na empresa, é normal que se tenha água filtrada; muitas vezes, o bebedouro elétrico já te entrega até a água gelada, daí é só adoçar.

Economia porca? Eu não diria! O suco fica uma delícia e é nutritivo, porque é natural. Só precisamos ter cuidado com a quantidade de açúcar. Eu gosto tanto de limão que tomo até em jejum de manhã cedo e, se for limão-galego, melhor ainda.

Eu estou contando estas coisas aqui, mas eu queria mesmo era ter sempre o que escolher para comer, para mim e para as crianças.

Por falar nisso, vocês já viram o preço do leite? Agora está uns R$ 4,98. Tendo em vista que eu tenho duas crianças e elas tomam leite com Toddynho (ou Toddy) todos os dias (na verdade, só quando tem). Nem sempre consigo comprar o fardo que vem com 12, e já reparei que, quanto mais leite e Toddy tem, mais eles tomam.

Meu filho pediu Toddy, e faltava um dia para o quinto dia útil. O cartão-alimentação recarregou 200 reais no dia 31 e, por conta do feriado prolongado, pagou só o que deu para esse período. Imagina só: cartão-alimentação zerado, salário só no quinto dia útil, o leite havia acabado, mas ainda tinha um pouco de Toddy. Eu tive que mandar um “zap” para algum amigo ou amiga e pedir uns 30 reais só para passar o resto do dia. Uma amiga salvou, mandou no Pix.

No almoço, teria coxinha de frango frita, mas já tinha acabado. As crianças comem muito. Foi arroz, feijão, coxinha de frango e suco de limão.

Pensei: “Preciso de uma salada desta vez”.

Peguei 3 tomates, 1 cenoura, 1 beterraba e 3 batatas. Lembrei que tinha óleo e mais 2 batatas, ia dar para fazer batatas fritas — pronto, deu R$ 8,55. Passei na porta do mercado e lá tinha uma placa: “Steak de frango a R$ 1,89 cada”. Ah, é isso! Comprei 5, deu R$ 9,45. Fui olhar o saldo, tinha 12 reais.

Aí eu lembrei que ainda tinha o lanche antes do jantar, as crianças comem muito. Lembra do pão dormido? Achei uns fofinhos por lá, peguei logo dois pacotes. Falei: “Acho que vou levar um suco de pozinho para variar um pouco”. Perguntei para a moça do caixa:
— Qual o valor do suco, moça?
— R$ 4,50.
— Vou levar. Quanto deu tudo?
— Deu R$ 9,50.
— Pronto! Registre mais um saco de pão dormido, por favor, que eu vou lá buscar.
— 12 reais… Qual a forma de pagamento?

Moral: Tudo vira estratégia de sobrevivência; nem sempre é falha, e sim necessidade.

Por D. Fs.
Bhte, 06 de abril de 2026.

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