Um relato sobre medo, afeto e o instante em que percebemos que crescer também é sangrar
Quando é que nós, mulheres, deixamos de ser crianças?
Para os homens, é fácil definir: é quando as piadas mudam.
Muitos mudam para pior. Poucos, melhoram com o tempo.
Para nós, mulheres, é diferente.
Temos um dia marcado — que não sabemos quando será — para que isso aconteça.
Pode ser constrangedor.
Pode acontecer num lugar em que não nos sentimos seguras.
Pode acontecer na escola.
Caramba… ainda bem que não nos damos conta da ansiedade que essa incerteza gera quando somos meninas.
Nosso cérebro ainda não está maduro o suficiente para entender o que significa esperar por algo desconhecido — algo que pode acontecer a qualquer momento.
Hoje penso que só tomamos consciência disso quando uma mulher que amamos passa por esse momento pela primeira vez. É aí que começamos a refletir sobre as circunstâncias que envolvem esse acontecimento.
Educamos as meninas.
Deixamos um “kit de emergência” na mochila da escola.
E torcemos para que tudo aconteça num ambiente acolhedor.
Quantas de nós não passamos por isso pela primeira vez na escola?
E ainda esperavam que continuássemos agindo normalmente…
Homem, imagine você começar a sangrar “do nada” no meio da aula.
Eu torci para que minha filha passasse por esse momento em um lugar seguro — e, de preferência, que eu estivesse por perto.
E ele chegou, recentemente.
Eu estava prestes a jogar minha primeira partida em um torneio de beachtennis quando abri o WhatsApp.
E lá estavam as mensagens dela:
“MÃE;
MÃE;
SOCORRO;
acho que fiquei mais velha;
MÃE;
SOCORRO;
ACHO QUE MENSTRUEI;
O QUE EU FAÇO;
EU TÔ SANGRANDO;
AH;
NÃO DÓI;
MAS TÁ SANGRANDO.”
Ela estava na casa do pai.
(pausa dramática)
Por sorte, pude contar com a ajuda da atual esposa dele, uma mulher especial.
Sim, uma mulher ajudando outra mulher.
Nenhuma novidade nisso.
Agora ela está toda envergonhada.
Se souber que escrevi isso, vai ficar ainda mais.
Mas percebi que é preciso normalizar.
Normalizar a menstruação.
Um processo natural, ao qual todas nós estamos submetidas.
Algumas o evitam com hormônios.
Outras o vivem como um rito transcendental.
Outras apenas convivem com ele.
Todas as escolhas são difíceis.
Todas têm um custo.
E a nós, mulheres, cabe escolher qual preço queremos pagar.
E essa escolha começa desde o primeiro sangramento.
Será que é aí que deixamos de ser crianças?
Ou é justamente quando aprendemos a lidar com tudo isso,
com a vergonha, a coragem e o amor que começamos, de fato, a ser mulheres?
Por Priscila Lelis Cagni – @priscila_plc





