No vigésimo primeiro dia das férias escolares de julho, eu ganhei uma folga. Minha filha ficou um dia inteiro sob os cuidados de duas tias e saiu de casa pedindo para só voltar depois de jantar. Quem é mãe sabe: em um dia como esse, corremos para fazer 50 mil coisas, que só são viáveis sem crianças, e no fim das contas, nem sabemos direito por onde começar. Haja habilidade para priorizar.
Depois de algumas providências, portanto, priorizei descansar de verdade — aquilo que não, não rola com ela em casa. Acontece que, depois do almoço, deitei na cama para ler um pouco e me deparei com uma sensação bem ruim: eu estava em alerta! Não tinha criança em casa para ficar atenta e eu tinha combinado comigo mesma que também teria folga do trabalho, mas eu simplesmente não saía do estado de alerta.
Ser mãe e empreendedora tem dessas. É uma combinação de motivos para seguir com o cérebro aceso, afinal, em ambos os casos, você lida com demanda regular e permanente 24 horas por dia, sete dias por semana. O combo de responsabilidades gera uma sobrecarga real, mesmo quando você tem com quem dividir uma parte dessas responsabilidades (com a criança ou com o negócio). E essa combinação nos coloca nesse lugar específico de alerta sem precedentes.
A mãe hormonalmente hiperconectada. Na maternidade, existem explicações fisiológicas para esse alerta, causado pela combinação de variações hormonais típicas dos primeiros meses da vida do bebê. O aumento de ocitocina e prolactina e a queda brusca de estrogênio e progesterona ajudam a remodelar o cérebro, tornando a mãe mais sensível ao choro e às necessidades do bebê, o que resulta no clássico sono leve e vigilante.
Acontece que, mesmo depois que a dança hormonal termina, a rotina e as demandas com os filhos seguem mantendo essa mulher naquele quadro hiperconectado, especialmente quando a rede de apoio é reduzida ou nula — o que explode quando falamos de mães que estão nessa missão sozinhas. E a atenção segue lá, firme, mesmo quando os filhos vão crescendo: as motivações apenas mudam à medida em que eles mesmos vão mudando.
A empreendedora hiperconectada pelo mercado. Por outro lado, iniciar um negócio costuma exigir atenção intensa durante os primeiros anos, até a “coisa andar”. Acontece que um negócio, semelhante a um filho, vai crescendo, amadurecendo e exigindo novas medidas e atenções. É possível construir uma jornada em que o negócio caminha, mesmo na ausência de quem o cria. De toda forma, é muito difícil (apesar de possível) construir uma jornada empreendedora que “permita relaxar”.
O cérebro também sofre com a hiperestimulação gerada pelo grande volume de conteúdos, regras e premissas apresentadas por gurus de diversos campos, que garantem que você só não prospera porque não quer, porque tem preguiça ou porque não é bom o suficiente para estar nesse lugar. Um grande volume de ofertas de mentorias, prometendo o céu como limite, é um exemplo do ambiente que provoca tanta hiperconexão, tanta hipervigilância.
Dois papéis, vigilância dobrada. Quando unimos esses dois papéis na mesma mulher, eu ainda não consigo entender como o corpo é capaz de dar conta. Na verdade, acho que não dá: o corpo reclama, mostra sua dificuldade de lidar com tanta adrenalina e cortisol, os hormônios que geram essa sensação de alerta. Se eles são essenciais para a sobrevivência em momentos de perigo, tensão ou medo, são um perigo quando entram de forma crônica na nossa rotina.
Consciência e respiração profunda. Venci a sensação de alerta no dia de folga tomando consciência da razão de me sentir daquele jeito. Eu me levei de volta à segurança e afeto que cuidavam da minha filha e à minha decisão racional de tirar um dia de folga da empresa. Consegui respirar profundamente por alguns minutos para ajudar meu corpo a sair daquele modo. Dormi profundamente por uma hora e acordei percebendo quanto meu corpo ainda estava cansado, mas minha cabeça já estava um pouco mais leve. Quando encontrei com minha filha, no fim do dia, estava inteira para ela novamente.
Mas… reiterei que preciso cuidar disso com mais regularidade, garantindo atividade física regular e exercício de atenção plena que me ajudem a trabalhar de forma focada, mas também recuperar as energias e reordenar a atenção. A ciência tem confirmado cada vez mais que o movimento do corpo e o silêncio da mente são elementos fundamentais para a saúde integral de qualquer pessoa, mas isso funciona de forma especialmente eficiente para mulheres que acumulam esses dois papéis.
Sigo tentando encontrar o equilíbrio que me ajude a não viver em alerta, mesmo sendo mãe empreendedora (duas versões de mim que espero que ainda fiquem por aqui por muitos longos anos).
E você, como lida com sua hipervigilância sendo mãe empreendedora?
“trabalho” “maternidade” “mãe empreendedora” “concentração” “autocuidado”
Autora: Aline Oliveira – @alineoliveira.floar
Revisão: Kátia Dias
Originalmente publicado em: https://www.linkedin.com/pulse/o-corpo-em-alerta-da-mãe-empreendedora-aline-oliveira-3gpgf/




