As pessoas olham para mim e veem o quê?
Não tenho como saber. Ninguém tem como saber; apenas presumimos pelo jeito que nos olham, nos tratam, pela consideração ou pela falta dela que demonstram. Tentamos interpretar os olhares dos outros, os gestos, as palavras, os silêncios. Tentamos entender o que projetam sobre nós e, muitas vezes, acabamos acreditando que somos aquilo que outras pessoas enxergam.
Para quem não sabe exatamente quem é, deve ser complicado se basear na expectativa alheia. Deve ser ainda mais complicado tentar caber naquilo que esperam de nós quando ainda estamos tentando descobrir onde nos encaixamos no mundo.
Aí entra a reflexão: eu achava que me conhecia muito bem, até me tornar mãe.
A história de se desconstruir, se transformar, redescobrir — essa história contada milhares de vezes —, pois foi minha vez de descobrir que era real. Eu sabia, em teoria, que a maternidade mudava tudo, só não sabia que mudaria tanto a forma como eu me enxergava, como os outros me enxergavam e, principalmente, como eu passaria a existir depois do puerpério.
Por ser uma mulher negra, do interior, da geração millennial, eu já trago, desde a infância, alguns problemas com identidade e ideal de mundo. Ok, esperado. Fui então, com o passar dos anos, construindo uma imagem externa de muralha de força, impenetrável, inabalável. Mas sempre soube que, por dentro, era apenas uma cerquinha baixa de madeira, frágil, precisando, volta e meia, de alguns suportes para continuar de pé.
O problema de parecer uma muralha são as pedradas que jogam na gente com a certeza de que daremos conta. As pessoas veem a força e presumem que ela é infinita. Não imaginam que, às vezes, por dentro, já estamos despedaçadas e que algumas pedras atingem lugares que ninguém consegue ver; que, mesmo permanecendo de pé, isso não significa que não estamos machucadas.
Ser mãe me colocou em um patamar de fragilidade inimaginável. Isso não me contaram.
Falam da força inumana das mães, das superações, da biologia feita para isso, de que somos guerreiras amazônicas intergaláticas, insuperáveis nas dificuldades para mantermos a cria viva e bem. Tudo isso é verdade. Sou capaz de tudo por meu filho. Mas não sei se sou capaz de me manter forte, bem, saudável e feliz.
Aqui entra outra parte da minha confusão.
É normal que a única fonte de felicidade na vida de uma mãe seja o filho? A internet diz que não. Devo me preocupar? Devo pedir ajuda e mostrar que não sou muralha, que sou, na verdade, uma cerquinha despedaçada, precisando urgentemente de reparos?
Eu tentei.
Pedi ajuda.
Me mostrei frágil.
E fui taxada de dramática, mal-agradecida, com hormônios desregulados, carente, preguiçosa, desamorosa e, por fim, pelo clássico: louca.
Existe algo especialmente doloroso em pedir ajuda e, em vez de encontrar acolhimento, encontrar julgamento. Porque, quando a gente finalmente deixa a muralha cair, espera que alguém olhe para os pedaços e ajude a recolher, não que use os pedaços contra você.
A importância de se enxergar verdadeiramente, sem a percepção dos outros, porque às vezes fere o olhar alheio, principalmente nos momentos difíceis. Nem sempre aquilo que descobrimos sobre nós é bonito ou confortável; às vezes, olhar para si exige admitir que não estamos bem. Exige reconhecer necessidades que passamos anos ignorando. Exige aceitar que ser forte o tempo inteiro também pode ser uma forma de se perder para sempre.
A maternidade fez com que me olhassem estranhamente como alguém que deve ser de tal forma, esperada, padronizada. Como se, depois de ser mãe, eu precisasse ocupar um lugar previamente definido, sem espaço para contradições, dúvidas, cansaço ou saudade. Mas ser mãe, na verdade, mostrou pedaços desconhecidos e desconfortáveis de mim. A estranheza dos outros também era minha, mas a saudade de ser quem eu era me fez sentir culpada por querer meu eu antigo de volta.
Como se amar profundamente meu filho significasse não poder sentir falta de mim mesma. Ser mãe trouxe o melhor e o pior de mim à superfície. Não consigo esconder a beleza do meu amor pelo ser que gerei; é um amor imenso, quase impossível de explicar. Mas também não consigo esconder a feiura de estar sempre exausta, de me sentir perdida, de querer, às vezes, apenas existir sem precisar ser forte para ninguém.
Na verdade, às vezes, só queria o colo, o afago, a presença sincera, sem interesses ou cobranças, o mesmo cuidado que tantas vezes ofereço. Talvez seja isso que ainda estou aprendendo: que amar meu filho não deveria exigir que eu deixasse de amar a mim mesma, que cuidar dele não deveria significar abandonar quem eu sou, e que pedir ajuda não me torna fraca, assim como estar cansada não diminui o tamanho do meu amor.
A maternidade me transformou.
Só ainda não consigo ver em quê.
Talvez eu ainda esteja no meio da transformação, talvez ainda não esteja completa, talvez essa cerquinha precise de tempo, cuidado e alguns suportes antes de descobrir que tipo de estrutura será capaz de construir, pois preciso de estrutura firme para ser abrigo seguro para quem eu mais amo. E, por fim, pela primeira vez, eu não precise ter muita pressa para descobrir; quem sabe eu só precise continuar me olhando para além do que os outros veem.
Autora: Ana Carolina Gonçalves – @carolgbio





