“Mãe” talvez seja um dos primeiros sons que a gente aprende a falar.
E acho que por isso essa palavra atravessa tanta coisa.
Dia das Mães também é sobre afeto, abraço, cuidado e presença. Mas queria que a data fosse além do consumo e daquela romantização da mãe que aguenta tudo calada.
Mãe que gera, mãe que adota, mãe avó, mãe tia, mãe que cria. Mães em suas diversas vivências, identidades de gênero e sexualidades. Porque a maternidade nunca foi uma coisa só.
Muito antes da ideia da mulher ter que dar conta de tudo sozinha, muitos povos indígenas e afro-brasileiros já entendiam o cuidado de forma coletiva. Crianças sendo responsabilidade da comunidade, da rede de apoio, da ancestralidade, do estar junto.
E talvez seja isso que falte tanto hoje.
Porque ser mãe parece até estado civil, quando maternidade na verdade é presença permanente.
Filho não se cria sozinha, embora muitas mulheres sejam empurradas para esse lugar como se fosse obrigação suportar tudo sem reclamar.
Talvez por isso, eu estranhe tanto quando tratam exaustão como virtude. Tem dias em que saio de casa pensando em trabalho, estudo, contas, compromissos e tudo aquilo que precisa ser resolvido antes do fim do dia. Tem dias em que a cabeça está em dez lugares ao mesmo tempo. E ainda assim, existe alguém esperando colo, atenção, escuta e presença.
E, talvez, uma das partes mais difíceis seja justamente essa: seguir presente quando a gente também está precisando de colo. Eu não lembro de ter recebido um manual explicando como equilibrar maternidade, trabalho, estudos e a tentativa constante de não me perder de mim mesma no caminho. A verdade é que muitas mães aprendem fazendo, errando, recomeçando e seguindo mesmo quando o corpo pede pausa.
E, sinceramente, viver em modo sobrevivência não deveria virar símbolo de força o tempo inteiro.
Se dizem que somos tão fortes, por que quase sempre sobra para nós o cansaço, a renúncia e o choro?
Porque, muitas vezes, o elogio da força vem acompanhado da expectativa de que a gente continue suportando. Aguenta mais um pouco. Dá conta de mais uma coisa. Resolve só mais isso. Como se o amor medido pela capacidade de suportar fosse uma qualidade e não um sintoma de que algo está errado.
Eu sou mãe, escolhi ser mãe, e assumi também sem querer outros papéis além de ser mãe. Por isso, sinto também por quem escolheu não ser mãe, porque imagino o outro lado do peso de ter que suportar a pressão em quererem controlar seus corpos, determinarem sobre o que te faz menos ou mais mulher, isso no mínimo é um saco (o que explica muita coisa sobre essas imposições, e sim, aqui a parte do saco contém deboche e ironia).
Porque no fim das contas, parece que a sociedade sempre encontra um jeito de dizer às mulheres o que elas deveriam fazer da própria vida. Se são mães, julgam. Se não são, também. Se trabalham demais. Se ficam em casa. Se priorizam os filhos. Se priorizam a si mesmas.
Também penso muito em como a maternidade costuma ser celebrada pelas partes mais bonitas, mas raramente pelas mais difíceis. Quase ninguém homenageia a preocupação constante, o medo, as noites mal dormidas ou o esforço silencioso que existe nos bastidores.
Utilizo a escrita também para dizer que aproveitem a aura de amor e cuidado que muitos prestarão este dia (alguns só hoje, né…) para observar mais ao seu redor, as camadas e tudo o que envolve ser mãe. Parem de cometer atrocidades, reforçar preconceitos e deem de presente para si a consciência.
Resultado dominical de hoje: conta que não fecha!
Então, que o carinho venha junto de apoio real, escuta, descanso, divisão de tarefas e rede de apoio também.
Porque flor é bonita. Presente também. Mas apoio não deveria ser algo reservado para datas comemorativas.
E no meio de tudo isso, eu quero que hoje seja mais um dia habitual de paz, afeto e abraços sinceros.
Feliz Dia das Mães!
Autoria: Priscila Araujo
Revisão: Bárbara Soares





