A Tal Mãezinha

A mother carrying a baby descends a staircase with a young child in a modern home.

Maio é o mês das Mães. Há flores, cafés da manhã, vitrines com homenagens, comerciais emocionantes, filhos tentando acertar o presente e empresas tentando vender afeto. Alguns acertam. Outros apenas vendem a imagem de uma mulher que não existe: a mãe sempre amável, sempre cabendo dentro de uma homenagem.

Talvez caiba nas redes sociais. Na vida, não.

A maternidade não cabe num buquê, num almoço, numa legenda bonita, nem naquela palavra aparentemente doce que tantas vezes escapa da boca de profissionais da saúde e da educação:

“Mãezinha.”

“Mãezinha, pode entrar.”

“Mãezinha, senta aqui.”

“Mãezinha, o que aconteceu com ele?”

E eu, que sou mãe de três filhos, ainda não consegui decidir o que me irrita mais: ser reduzida à função, ser apagada como sujeito ou ser diminuída dentro da própria função. Porque “mãe” já é uma palavra imensa. Tão imensa que, se a mulher não se vigia, pode desaparecer dentro dela. Mas “mãezinha” faz algo mais ardiloso: encolhe a palavra grande, adoça o apagamento e oferece isso como delicadeza.

Não é delicadeza.

É uma forma socialmente aceita de me retirar do meu nome.

Quando uma criança diz “mãezinha”, há intimidade. Há corpo, história, cheiro de casa, febre de madrugada, mão pequena procurando abrigo. Quando um profissional que não me conhece diz “mãezinha”, há outra coisa. Há pressa, protocolo, impessoalidade. Há uma espécie de carinho administrativo e hipócrita, desses que parecem macios apenas porque ninguém quer olhar de perto. A mesma palavra muda de natureza conforme a boca que a pronuncia.

E eu tenho nome.

Parece pouco dizer isso. Mas não é. O nome talvez seja uma das primeiras moradas simbólicas que recebemos no mundo. Antes de sabermos responder por nós, alguém já nos chama. Antes de termos uma ideia de “eu”, já existe uma palavra nos esperando do lado de fora. Um dia, com vivência e conflito, passamos a habitar essa palavra.

Talvez por isso “mãezinha” me incomode tanto. Não porque eu rejeite a maternidade. Ao contrário. A maternidade me atravessa de modo profundo demais para ser tratada como apelido de balcão. O que rejeito é o sequestro da minha singularidade por uma palavra genérica. O que rejeito é entrar numa loja, numa recepção, numa sala de espera e perceber que meu nome ficou do lado de fora, junto com a minha paciência.

Há quem diga: “Mas é só uma forma carinhosa.”

Mas, pasmem! Nem todo diminutivo é afeto. Alguns alisam a cabeça enquanto empurram a pessoa para baixo. O diminutivo pode aproximar, sim. Mas também pode infantilizar. Pode proteger uma criança, mas pode rebaixar uma mulher adulta. No caso de “mãezinha”, o problema não está apenas na palavra. Está no lugar de onde ela vem e no lugar em que ela nos coloca.

Eu conheço a rotina. Sei que há ignorâncias, filas, urgências e profissionais exaustos. Mas há uma diferença entre estar cansado e transformar o outro em categoria.

A categoria passa depressa. O nome faz parar.

“Mãezinha” é rápido porque não exige encontro. O nome exige um segundo a mais de presença. Talvez seja esse o incômodo. Chamar pelo nome obriga o outro a lembrar que diante dele não há apenas “a mãe do paciente”, “a mãe do aluno”, “a responsável”. Há uma mulher. Alguém que também chegou ali com sua própria história, sua angústia, sua inteligência, sua raiva educada, seu medo de não ser escutada.

“Mãezinha” parece pequeno. Mas é justamente no pequeno que certas violências aprendem a passar despercebidas. Não grita. Não ofende abertamente. Não deixa marca visível. Apenas desloca a mulher, delicadamente, para fora do próprio nome.

Ser chamada pelo nome recompõe uma pequena cena de existência. Não resolve o mundo, eu sei. Mas devolve contorno. Por um instante, deixo de ser a acompanhante, a responsável, a que assina, a que explica, a que responde. Volto a ser alguém diante de alguém.

Talvez seja isso que mais me inquiete: a facilidade com que a sociedade celebra as mães enquanto apaga as mulheres. No domingo do Dia das Mães, somos homenageadas, fortes, necessárias. Na segunda, somos chamadas de mãezinha na recepção. Depois, esquecem que toda mãe é alguém.

E ser alguém dá trabalho. Para os outros e para nós mesmas.

Porque é mais confortável lidar com a mãe ideal do que com a mulher real. A mãe ideal agradece. A mulher real pergunta. A mãe ideal entende. A mulher real se irrita. A mãe ideal escuta. A mulher real diz: “Por favor, me chame pelo meu nome.”

E há sempre um pequeno susto quando eu digo isso. Como se tivesse quebrado um acordo estrutural, assinado por outras pessoas em meu nome. Como se, ao pedir o meu próprio nome, eu estivesse recusando a maternidade. Não estou. Estou apenas recusando o desaparecimento.

Eu sou mãe. Mas não sou uma palavra só.

Sou mãe de três filhos, esposa, filha, mulher, pesquisadora, psicanalista, escritora, aprendente e desejante. Sou alguém que já respondeu por febres, reuniões, boletins, medos, diagnósticos, documentos, urgências e esquecimentos. Sou aquela que ama profundamente e ainda assim fica exausta. Sou aquela que cuida e também precisa ser vista. Sou aquela que deu nome aos filhos, mas não entregou o próprio nome em troca.

Não me chame de mãezinha.

Não porque eu despreze o afeto. Mas porque afeto sem reconhecimento vira verniz. E eu não preciso de verniz. Preciso de um cuidado que não me apague enquanto cuida do outro. A escola, o consultório, a secretaria e a sala de espera precisam compreender que uma mãe não é uma extensão administrativa da criança. Ela é sujeito.

E sujeito tem nome.

Maternidade não deveria ser um apagamento. Deveria ser um acréscimo. Uma camada a mais, não uma substituição. Um nome que se expande, não um nome que desaparece. Por isso, da próxima vez que alguém te chamar de “mãezinha”, sorria. Não por concordar, mas por já saber o que dirá.

Com calma. Com firmeza. Sem pedir desculpas por existir inteira.

Meu nome é ________________. Me chame pelo meu nome.

Autora: Daisy Cecatto
Revisão: Laura Bonruck 

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