Ao se deparar com a necessidade de exercer a maternidade solo, a mãe costuma ser cobrada para dar conta de criar o filho sozinha. Essa cobrança pode vir não somente da sociedade, mas também dela mesma. Afinal, vivemos numa sociedade machista em que a mãe solo carrega o estigma do fracasso na manutenção da união com o pai da criança. Como se coubesse somente à mulher a tarefa de zelar pelo relacionamento. Como se o sucesso da mulher fosse medido pela sua capacidade de “segurar” seu homem. Como se o filho fosse somente dela. “Quem pariu Mateus, que o embale”.
Nesse contexto, a mãe solo pode tentar provar que não precisa da participação do pai na criação do filho, para compensar “sua” incompetência na escolha de um parceiro para essa missão. A medida de sucesso da maternidade solo se baseia no quão autossuficiente ela consegue ser, para merecer título elogioso de “guerreira”. Ou então, pior ainda, pãe: aquela que é mãe e pai ao mesmo tempo. Não existe ser mãe e pai ao mesmo tempo, o que existe é a romantização das mães sobrecarregadas.
No meio de tantos conceitos e papéis pré-concebidos, a opção de não dar conta de criar o filho sozinha fica rotulada como fracasso. Mais um fracasso, já que o primeiro foi ter se tornado mãe solo. Na melhor das hipóteses, a mãe solo que não se mostra autossuficiente é vista como uma coitada. A vitimização dessa mulher, considerada digna de pena, pode fazer também com que o filho seja enxergado como um fardo que essa pobre mãe precisa carregar sozinha. É inestimável o impacto desse estigma na relação de mãe e filho. Entretanto, o fardo existe e não é o filho, e sim a ausência paterna, a falta de rede de apoio, enfim, a sobrecarga.
Enquanto isso, os homens se respaldam no mito da incapacidade masculina. Afinal, existe a ideia, articulada no inconsciente coletivo, de que eles não são capazes de cuidar adequadamente da prole. Não tão bem quanto a mãe. Mesmo quando se esforçam. No fim das contas, pode ser entendido até mesmo como melhor para a criança ser cuidada sempre somente pela mãe, já que os pais são vistos (e se enxergam) como desqualificados para esta atividade.
Toda criança tem direito a ter mãe e pai presentes, independentemente de estarem juntos ou não. Analogamente, toda mãe tem direito a dividir as obrigações e responsabilidades em relação a um filho. Ser a única responsável pela criação de um filho leva, no mínimo, à sobrecarga desta mãe, podendo comprometer inclusive sua saúde física, mental e emocional. Ainda assim, o trabalho de cuidado, invisível e não-remunerado, é enxergado pela sociedade como uma obrigação única e exclusivamente materna.
Infelizmente, há muitos pais que condicionam o exercício da paternidade à existência de um relacionamento amoroso com a mãe, ou até mesmo ao “bom comportamento” da progenitora ao atender condições pré-determinadas. Em paralelo, a justiça cobra o exercício da paternidade somente pelo pagamento de pensão, deixando a presença e o cuidado como um direito a ser exercido ou não pelo pai.
A maternidade solo é uma realidade com a qual a sociedade precisa aprender a lidar. A sobrecarga não pode continuar sendo entendida como uma questão individual, e sim estrutural. As mães solos não devem ser categorizadas entre guerreiras e coitadas, mas tão somente mães. Mulheres que tentam conciliar a maternidade, a ausência masculina e suas próprias necessidades, não necessariamente nessa ordem de prioridades.
Escrito por: Márcia do Valle – @marciadovalleescritora
Revisão: Angélica Filha





