São 2h15min, acordo com o zumbido do mosquito no ouvido e saio à caça, achei. Volto a tentar dormir, escuto a criança tossir, a tosse persiste, ajeito o travesseiro, ofereço água, parece que passou… passou meu sono também. Agora, ficamos eu e a noite. Penso nas contas a vencer e naquelas que talvez já esqueci de pagar, no lanche de amanhã para a escola, no almoço, quantos uniformes limpos ainda restam, trocar a água dos gatos e do cachorro, quais atividades priorizar no trabalho amanhã, não tenho conseguido me exercitar e quando vou, fico dias com dor.
Confiro o relógio: se eu dormir agora, ainda dá pra dormir cinco horas. Não é bom, mas não é tão ruim. Respira, segura, solta. Repete: é certo que eu vou dormir. Pra que pensar tanto?
Lembro então da minha mãe. Não parecia ser fácil, mas você sempre dava conta (será que dava?). Achei simbólico quando li que a gente já morou dentro da nossa vó. Tudo porque, lá pelas 20 semanas de gestação, minha mãe dentro dela gerou os óvulos que liberaria ao longo da vida, e eu passei a existir naquele momento e, assim, também meus filhos. Carregamos DNA, carregamos emoções, carregamos história daquelas que vieram antes de nós, acho que numa época em que muito se fala de quebrar ciclos (e que bom isso), porque há muito a ser superado. Existe tanto a ser honrado também.
Minha avó, Dona Thereza, aprendeu a ser forte porque não tinha outra opção. Era lida na roça, porque se não trabalhasse, não tinha o que comer e precisava criar oito filhos (quatro homens e quatro mulheres). Saía antes do sol nascer e voltava depois dele se pôr. Os mais velhos cuidavam dos mais novos, foram ensinados que cada um precisava cumprir suas obrigações em casa. Minha mãe, Margarida, a mais nova das mulheres, estudou até a quarta série porque na roça só tinha uma escola e “moça direita” não ia estudar na cidade. Margarida trabalhou desde pequena, casou, esperou alguns anos para conseguir ter seu bebê nos braços depois de uma dura perda e tentativas frustradas. Foi convencida de que não tinha escolha além de ser forte, e ser forte era engolir choro e continuar trabalhando; era amar, mas não ficar demonstrando. Ela construiu uma fortaleza para si; se acostumou a acordar antes do sol e dormir depois de todo mundo, assim como sua mãe. Durante o dia tirava leite de algumas poucas vaquinhas, quebrava milho a mão, fazia comida. Cuidava de casa e das crianças, do marido, dos sogros – menos dela.
Eu fui ensinada que também deveria ser forte e que deveria ir mais longe, por isso, tinha que estudar e tudo ia dar certo. Na realidade não foi tão simples, mas Margarida, do jeito dela, deu seu melhor para que a filha tivesse mais opções de escolha. Eu estudei, pude dedicar mais tempo de qualidade aos meus filhos, pude ser uma mãe diferente por causa das que vieram antes.
Hoje, meus filhos têm uma avó que brinca, cuida, ama, de um jeito que eu nem lembrava, porque como mãe, Dona Marga estava cansada de dar conta de tudo, mas quando chegaram os netos, sobrava espaço, sobrava tempo. Os anos trouxeram paciência, e talvez a experiência da maternidade tenha ensinado que dá pra demonstrar afeto não só no “você vai vir almoçar? vou fazer o que você gosta.”
A gente cresce e entende que cada um dá o que pode, e minha mãe sempre deu o que tinha: o “leva o casaco”, o “se cuida”, o “agora eu não consigo comprar, mas no Natal eu dou” e juntava dinheiro o ano inteiro só pra isso.
Deu saudade, mesmo morando perto. Depois que cresce, cada uma se divide nas obrigações da vida adulta e a rotina consome. Porém, fiquei feliz de pensar na Dona Marga brincando com os netos no quintal, de um jeito que ela nunca teve tempo de ser comigo – e vou dormir sabendo que isso também é herança.
Autora: Jessica Bazzo
Revisão: Bárbara Soares





